Greve d@s Cozinheir@s do R.U. : a Ação Direta como resposta a precariedade do trabalho e a Burocracia Sindical

Nos dias 19, 20 e 21 de março, sujeitos geralmente invisíveis no erudito ambiente da UFPR chamaram a atenção de toda a comunidade acadêmica com sua movimentação: em seus três dias de greve, @s cozinheir@s dos Restaurantes Universitários da UFPR deram uma aula de luta.

Estes, que tinham como pauta uma singela reivindicação — um aumento de 15% em seu salário de pouco mais de 700 R$ —, fizeram visíveis as condições de precariedade a que estão submetidos como empregados terceirizados, tanto no que tange a seus direitos, quanto em sua representação sindical.

As primeiras mobilizações!

Estes trabalhadores, poucas semanas antes, já haviam tido enfrentamentos com a empresa que presta serviço de cozinha nos Restaurantes Universitários da UFPR e é responsável por sua contratação, a Orbenk, pois esta não queria respeitar seus direitos na implementação do serviço do R.U. de domingo a domingo (na greve estudantil de 2011 @s estudantes conquistaram três refeições ao dia, todos os dias da semana). A empresa apenas exigiu que fosse cumprida esta carga horária sem sequer vir comunicá-los diretamente sobre as mudanças na prestação de serviço. Tendo em vista estas condições, fica evidente o quão fragilizado é o setor d@s terceirizad@s na UFPR — um setor que, depois de uma greve onde todas as categorias da universidade obtiveram vitórias, iria pagar a conta. Cabe ressaltar que o assédio moral sobre estes trabalhadores para que silenciassem suas demandas veio de todos os lados, tanto de funcionários da UFPR quanto da empresa, revelando, novamente, sua frágil condição de trabalho. Devido à precariedade de seus contratos — que não garantem nenhuma estabilidade no emprego — , tornam-se muitas vezes reféns destas relações onde o assédio moral é cotidianizado, o que ocorre em função do medo da perda do emprego que é seu sustento e, na maioria das vezes, também de sua família.

Em algumas reuniões, que ocorreram pouco tempo antes da volta às aulas, iniciaram-se as mobilizações d@s trabalhadores/as do R.U. , contando já com a solidariedade e o apoio de estudantes. Alertada da incipiente organização que se iniciava da parte d@s trabalhadores/as para exigir seus direitos, a empresa se fez obrigada a comparecer ao local de trabalho para prestar alguma satisfação a respeito do novo horário de funcionamento do R.U. Ao chegar, já  aos gritos de “greve, greve!”, a empresa foi pressionada a recuar e “conceder” os direitos já garantidos aos trabalhadores/as em Constituição, mostrando que não é no “papel” que @s trabalhadores/as asseguram seus direitos, mas na luta. Disto vêm as primeiras vitórias da organização destes trabalhadores, que conquistam direito ao ponto facultativo nos domingos e feriados, assim como direito à hora extra 100% nestas datas e 50% horas extras aos sábados.

A Greve!

No dia 19 de março se inicia a greve d@s cozinheir@s, que reivindicavam apenas 15% de acréscimo ao seu salário, pois por dois anos seguidos (2011 e 2012) receberam apenas 7% enquanto @s auxiliares de cozinha receberam 15%, ocasionando uma defasagem no salário da categoria. Cabe ressaltar que o sindicato referendou o aumento de 7% em negociação junto à patronal.

Em seu primeiro dia, por causa do assédio moral, @s auxiliares de cozinha — companheir@s de serviço d@s cozinheir@s — não puderam paralisar o trabalho devido ao forte constrangimento sob o qual foram submetidos, apesar de terem demonstrado solidariedade ao movimento. No segundo dia, por meio do piquete que @s grevistas junto a@s aliad@s estudantes realizaram,  @s cozinheir@s paralisaram as atividades do R.U. , de modo que seus colegas auxiliares — que já eram solidários a greve — puderam aderir. Junto a isto, foi feito por trabalhadores/as e estudantes uma pressão junto ao sindicato  para que este intervisse junto ao R.U., pois era ilegal o trabalho d@s auxiliares na função d@s cozinheir@s, uma vez que este se caracteriza como desvio de função — sem mencionar, além disso, o fato deste trabalho ter sido forçado via assédio moral. No primeiro dia, também os patrões formulam uma primeira proposta, se é que podemos chamar de proposta… a empresa propôs acrescentar 17% aos salários (o que dava por volta de 64R$) porém tirar parte do vale refeição (cerca de 90 R$). Pois bem, esta conta não batia para o trabalhador, afinal quem ganhava com isso era o patrão… portanto, firmes em seu propósito, a greve continuou.

No terceiro dia de greve finalmente o patrão resolve dar as caras (o próprio dono da empresa, que nunca havia enfrentado uma greve nos 24 anos de existência desta), o que ocorre porque este já havia tomado uma multa de 9 mil reais (da parte da Reitoria da UFPR) no primeiro dia de greve, e provavelmente tomaria uma segunda multa neste segundo dia de paralisação do serviço (terceiro dia de greve). O patrão demonstra sua intransigência, alegando que não podia perder seu lucro (lucro bancado pelos impostos d@ contribuinte) e não negocia nada. @s trabalhadores, portanto, mantêm a greve. No dia seguinte, forçado pela greve que se mantinha, o patrão inicia pela manhã uma segunda rodada de negociações, que delibera que se até a segunda feira seguinte (26.03) nenhuma proposta fosse apresentada aos trabalhadores/as, terça feira (27.03) a greve voltaria, bem como a estabilidade aos trabalhadores da comissão de negociação até o fim do contrato. Na segunda-feira, dia 26 de março, os trabalhadores recebem a notícia de sua vitória: um aumento de  R$ 50 em seu vale refeição por dois meses, para que neste período a empresa possa criar meios de acrescentar algum aumento no salário d@s trabalhadores.

A Greve enfrenta o Sindicato!

No Brasil enfrentamos uma dura conjuntura, onde não somente os direitos d@s trabalhadores/as são caçados, como muitos de seus sindicatos se encontram burocratizados, quando não associados diretamente aos patrões. Tal burocratização é fruto da repressão ao sindicalismo combativo (o sindicalismo revolucionário) que criou todo um arcabouço jurídico de atrelamento ao Estado e aos patrões, fazendo com que os organismos de luta dos trabalhadores capitulassem, em grande medida, para os interesses das classes dominantes. O fato é que, em mais de 8 anos de governos do Partido d@s Trabalhadores, não se nota qualquer esboço para superar esta situação. Pelo contrário: vemos sempre mais ataques aos sindicatos que realmente defendem suas categorias, e mais e mais direitos d@s trabalhadores sendo retirados. Esta é uma discussão que devemos tratar com muita seriedade, e não será portanto neste breve texto que buscaremos discuti-la.

Muitos d@s trabalhadores/as do R.U. buscaram apoio em seu sindicato, porém quando telefonavam no mesmo este alegava não representá-los (porém na hora de sindicalizá-los e receber 51R$ por mês descontados em folha, e mais 8R$ por trabalhador via imposto sindical, o sindicato não negou que representava estes/as trabalhadores). Desta maneira @s trabalhadores do R.U. tiveram de iniciar sua greve sem seu sindicato, e mais, contra ele, que somente veio a aparecer para “manter o controle da situação”, inclusive chegando o presidente deste sindicato a ameaçar apoiadores d@s trabalhadores. O sindicato destes trabalhadores por vários momentos demonstrou sua lealdade não aos trabalhadores/as, mas aos patrões, pois como já citado, na mesa de negociações que aprovou o aumento de 7% no ano de 2011 e 2012 o sindicato referendou tal acerto sem sequer consultar sua base, assim como por vários momentos durante a greve deu indícios de que negociou nas costas d@s trabalhadores/as, além de desencorajá-los em sua greve a todo momento.

Um exemplo a ser seguido!

Primeiramente, não podemos deixar de afirmar que nós do Coletivo Quebrando Muros a todo momento firmamos nosso apoio aos trabalhadores em sua luta, e mais: nos comprometemos em nosso dia-a-dia com a classe pela qual fizemos opção —  a classe trabalhadora. Como coletivo estudantil organizado na UFPR, não poderíamos deixar de demonstrar nossa solidariedade a estes trabalhadores em luta, e foi em nossa prática junto a Secretaria de Solidariedade ao Terceirizados do SINDITEST UFPR que ocupamos nosso posto neste embate.

Sabemos que há muito a ser aprimorado na organização e luta junto a estes trabalhadores, mas preferimos os erros proporcionados pela prática do que os acertos provenientes do ostracismo intelectual. Acreditamos, portanto, que algumas lições desta greve ficam como acumulo histórico desta classe que reivindicamos: 1) A situação d@s trabalhadores/as terceirizados, etão fragilizados em seus direitos e tão expostos a represálias do patrão, só podem ser resolvidos de uma maneira: com sua AUTO-ORGANIZAÇÃO para a AÇÃO DIRETA, o único meio de avançar na luta d@s trabalhadores/as, afinal “a emancipação d@s trabalhadores/as será obra d@s próprios trabalhadores/as” 2) A solidariedade de classe é fundamental para avançarmos nas lutas. Neste sentido, a ação d@s estudantes e servidores/as reunid@s na Secretaria de Solidariedade aos Terceirizados e Estagiários é exemplar, mostrando na prática como quebramos o corporativismo e construímos um projeto de unidade dos “de baixo” contra “os de cima”, avançando na construção do Poder Popular. 3) É nas lutas, em nossa prática cotidiana, que abrimos os caminhos e descobrimos como enfrentar a barbárie deste sistema, seja em sua face da privatização e precarização de direitos, como em face do burocratismo e peleguismo sindical que nada mais é que o interesse do patrão em nossos organismos de luta.

Leia também: https://quebrandomuros.wordpress.com/2012/03/20/todo-apoio-a-greve-ds-cozinheis-do-r-u-ufpr/

Onde há Muros, há o que esconder”

Coletivo Quebrando Muros

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