Contra a violência à mulher – carta de apoio à companheira Paula

Contra a violência à mulher – carta de apoio à companheira Paula

Coletivo Quebrando Muros

Que el passado se hunda en la nada!

Que nos importa el ayer?

Queremos inscribir de nuevo

la palabra mujer”

Hino das Mujeres Libres – 1937

A coragem da companheira Paula é de extrema relevância no período em que vivemos. Revelando o quanto as mulheres têm de demonstrar sua força para poder combater o machismo.

É importante Lembrar que vivemos um momento marcado pela nebulosidade em relação aos problemas relacionados ao gênero feminino. Em que, para o “senso comum”, os direitos das mulheres já foram conquistados e estas já estão em quase pé de igualdade com os homens – quem sabe para as mulheres ricas isso seja verdade. Entretanto, nós, mulheres trabalhadoras, sabemos muito bem que ainda somos muito exploradas e oprimidas. No capitalismo somos nós que recebemos os menores salários, os empregos mais precarizados, mais instáveis, não temos acesso à creches e escolas públicas para xs filhxs, e ainda possuímos uma dupla jornada de trabalho (cuidando de crianças, idosos e toda a economia doméstica). Além disso, somos violentadas diariamente, com palavras – no simbólico – que não queremos ouvir e, quando isso se agrava, vivenciamos violências físicas e violações de nossas vontades, com assédios e estupros. E ainda, nem mesmo termos o direito sobre nossos corpos com a criminalização do aborto.

Nós, mulheres da classe oprimida, temos que diariamente aprender a dizer: NÃO! À todas essas formas de opressão, agindo de maneira individual ou de maneira coletiva – com maior força – nos espaços de militância nos movimentos estudantis, comunitários, agrários ou sindicais.

Ingenuamente, em nossos espaços de militância, acreditamos encontrar militantes, homens e mulheres, com posturas diferenciadas. Entretanto, percebemos que nossxs colegas também foram criados nesta sociedade e apresentam muitas limitações. Assim, nos movimentos sociais, todxs necessitam apreender dia a dia a ter relações mais libertárias, é um processo. Como em todos os processos há pessoas que estão dispostas a se modificar, se educando e aprendendo, e outras que não estão dispostas e acabam ficando pelo caminho. Estas pessoas que continuam com suas práticas opressivas e não querem modificá-las não são necessárias para o nosso movimento, não queremos que elas façam parte dele, devem ser expulsas e derrotadas. Pois, para construir a sociedade que queremos, a transformação do atual sistema, derrotando o patriarcado e a classe exploradora, precisamos – desde já – construir com as pessoas dispostas uma nova sociedade sem hierarquias, igualitária para todos os gêneros, baseada na liberdade, solidariedade, autogestão e no federalismo!

O Coletivo Quebrando Muros repudia toda e qualquer violência gratuita. Seja contra mulheres ou homens; homossexuais ou heterossexuais; trans* ou cis; negros, índios, asiáticos ou brancos. Demonstramos aqui nossa solidariedade para com a companheira Paula, e também à todxs as vítimas do machismo, do sexismo, do racismo e/ou da homofobia. Por uma sociedade livre e justa: Nenhuma agressão ficará sem resposta!

Força à companheira Paula!

Força a todas as mulheres trabalhadoras!

Publicização do caso de violência sofrida pela companheira

Carta Aberta

Venho através desta carta de repúdio denunciar o machismo. Em especial, no meio libertário, espaço qual lutamos para que seja sempre combativo e não agregador de posturas como essa.
Na noite de 11 de setembro de 2012, Gustavo Oliveira (xGustavinhox – Nieu Dieu Nieu Maitre e Holodomor, MPL e CMI), dito anarquista e feminista, responsável pela Ocupação J13, de Curitiba/PR e até então, meu chamado “companheiro”, me agrediu com socos, empurrões e tentativa de estrangulamento.
Em meio a desavenças e intrigas criadas pelo agressor durante muito tempo, alguns episódios menores já haviam se sucedido. Na noite da ocasião, tive intenção de esclarecer coisas entre eu e sua outra companheira, assim também com o nosso amigo e meu ex companheiro, que se fazia presente. Procurava me inserir num espaço dito libertário com transparência e dar fim aos desentendimentos causados por mentiras. Acreditei que a presença de todos os envolvidos, escutando ao mesmo tempo, retiraria a vantagem e o poder dele, visto que era a única pessoa que mantinha diálogo com os demais e ainda nos proibia, por uma série de chantagens, de nos comunicar.
Quando cheguei ao espaço onde os três estavam, foi-me negado o pedido de ter uma conversa, mas antes que a janela se fechasse, tive tempo de falar coisas julgadas importantes ao conhecimento dos outros e então sua companheira abriu a porta e decidiu ir embora sem discutir. Tentei acompanhá-la e expor os porquês de eu aparecer ali daquela maneira. Após alguns minutos, quando voltei à “Ocupa J13”, fui logo empurrada com violência ao vidro do ponto de ônibus, onde bati o cotovelo e caí no chão. Nosso amigo, Vinícius (Piuí), testemunhou e interviu após ter sido ameaçado, que recebeu também um empurrão. Mesmo assim continuei a ser ameaçada.
Seguiu-se uma longa discussão, onde mesmo sem a presença de sua companheira, expus os fatos que fui determinada a falar. Com os ânimos mais calmos depois de um bom tempo, fui embora de lá com o Vinícius. Alguns minutos após, ele me ligou dizendo que queria pegar os pertences dele e veio até a minha casa. Ainda em choque, permiti a entrada dele esperando ouví-lo uma vez mais, com a esperança de que ele mudasse seu discurso, por ter sido confrontado com fatos anteriormente. A partir desse momento, as intenções dele eram outras: Entrou no meu quarto e jogou o que estava em cima da mesa no chão alegando que eu havia escondido as coisas dele, abriu gavetas, jogou roupas no chão, ameaçou jogar uma caixa cheia de coisas pela janela do apartamento e enfim, bagunçou e quebrou o que pôde.
Peguei o celular para chamar a polícia implorando para que ele parasse, e ele o tomou de minhas mãos e jogou em cima do guarda roupas. Na tentativa de impedir que ele continuasse a destruir minhas coisas, comecei a gritar para que ele fosse embora e me deixasse em paz. Foi nesse momento que ele me deu socos e me jogou no chão. Tentei contê-lo, mas ele conseguiu me jogar na cama, e então subiu em cima de mim e apertou o meu pescoço com as duas mãos. Nessa hora, em meio ao desespero, reagi conseguindo arranhá-lo no pescoço. Tudo isso aconteceu rapidamente e logo, minha companheira de apartamento, Rafaele Schorr interveio. Eu pedi para que ela chamasse a polícia e ele parou imediatamente. Ainda assim, foi embora jurando vingança (?).
As fotos dos hematomas foram tiradas na manhã seguinte. Ele negou durante dias de todas as maneiras possíveis o que fez, então resolvi enviar as fotos para ele e falei sobre minhas intenções em denunciá-lo. Mesmo assim, chegou por terceiros o singelo recado de que eu mereci ter apanhado, por querer ter resolvido uma situação insustentável.
Tentei dialogar de várias formas e não obtive qualquer sinal de arrependimento. Em seguida, decidi investigar o passado dele; conversando com vários amigxs, ex amigxs e ex companheiras. Acabei descobrindo a reincidência dos fatos, tanto na violência, como exatamente no mesmo formato das intrigas e manipulações já praticadas durante muitos anos. Hoje enxergo que essa conduta se reflete no funcionamento da ocupação e muitas vezes nas práticas autoritárias dentro dos coletivos. Ele utiliza de um espaço dito libertário (que na verdade é privado, porque só entra quem tem afinidade pessoal) para atrair meninas mais novas em nome de um ideal anarquista, mas as manipula sempre à seu favor. Utiliza também da retórica do “amor livre”, quando na verdade cria relações baseadas em mentiras e intrigas onde as envolvidas não sabem uma das outras e, quando descobrem, o fato se dá da pior maneira possível, por terceiros. Ele cria inimizades, jogando sempre umas contra as outras e abusando do que o patriarcalismo prega: a sensação de que nós, mulheres, devemos disputar entre si. É esse o seu verdadeiro jogo de poder machista. As envolvidas são mantidas em completa ignorância sobre o que, de fato, ocorre e também sobre as outras companheiras, as quais ficam de mãos atadas por chantagens.
Enquanto feminista, enquanto anarquista e enquanto mulher, não posso me manter calada e legar à outra mulher o sofrimento e a dor que me foi causada. Ao ficar calada, daria consentimento à todos os homens que espancam mulheres. Portanto, em solidariedade à todas as mulheres que sofreram e sofrem pela confiança traída e violência de seus companheiros, fica aqui o meu posicionamento de repúdio.
Além desta denúncia, estou movendo uma ação por agressão contra ele. É imprescindível que qualquer agressor machista seja repreendido e execrado do meio em que atua com violência. Outras mulheres já foram vítimas de agressão e de manipulações por parte dele, e mesmo tendo sido de conhecimento público a agressão dele contra uma ex companheira há 8 anos, ele continuou transitando pelo espaço libertário sem qualquer censura. Impune para cometer a mesma agressão novamente.
Um homem que utilize de sua posição de superioridade física para subjugar uma mulher, de qualquer maneira que seja e por quaisquer que sejam os motivos, comete um ato injustificável e irremissível. Merece o ostracismo e a reeducação.
Peço o apoio para desmascarar esse machista em pele de libertário. Boicote, não se cale, não seja cúmplice!
Segue em anexo o B.O., uma foto do Gustavo para fins de reconhecimento e fotos dos ferimentos causados por ele.”

(Retirado de http://bastademachismo.blogspot.com.br/2012/10/venho-atraves-desta-carta-de-repudio.html)

 

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