Cartilha de Formação do Coletivo Quebrando Muros

Apresentação

Esta é a primeira cartilha de formação do Coletivo Quebrando Muros e é com muita alegria que fazemos chegar às suas mãos, afinal, esta é fruto de nosso amadurecimento coletivo. Tal material tem o objetivo didático de contribuir no entendimento e esclarecimento de nossa militância acerca dos aspectos teóricos que envolvem a prática enquanto agrupamento de tendência. Desta maneira, tem o objetivo político de contribuir na coesão ao que se refere à prática política.

É importante destacar que este é um material didático, logo limitado, que tem como objetivo trazer o mínimo acúmulo comum. Esperamos chamar a atenção à importância do estudo, despertar a curiosidade e , por consequência, a vontade de conhecer mais.

Boa leitura e boa formação.

Secretaria de Formação.

 

 

1. Reflexões iniciais a respeito do nascimento da doutrina socialista

• Desdobramentos do pensamento Iluminista

• Alguns precursores do socialismo moderno

 

2.   Luta de Classe e Movimento Operário do Início à Cisão: Definindo os Horizontes

 • Onde tudo começou.

• O Surgir do Movimento Operário

• Dos precedentes da I AIT

• I AIT

• Cisão: Dois Horizontes Distintos, Socialismo Autoritário e Socialismo Libertário

 

3.   A Comuna de Paris e a Primeira Experiência de Autogoverno Operário

 • Divergências entre autoritários e libertários sobre a Comuna

 

 

4. Conclusões

 • Por que Acreditamos?

• NO QUE ACREDITAMOS

 

 

 

         1. Reflexões iniciais a respeito do nascimento da doutrina socialista

Podemos dizer, de maneira geral, que as doutrinas socialistas são identificadas como a expressão política da classe trabalhadora na luta contra o capital. No entanto, localizar historicamente a origem do socialismo não é tarefa fácil, havendo discordância entre os próprios estudiosos dessa doutrina.

De acordo com G;D;H. Cole (Historia Del Pensamiento Socialista), a palavra “socialismo” apareceu na imprensa pela primeira vez em 1832, empregada para caracterizar o pensamento de Saint-Simon. A palavra comunismo (intimamente ligada com a noção de socialismo) aparece segundo Cole, também no século XIX, empregada pela primeira vez na França e utilizada para descrever algumas sociedades revolucionárias secretas presentes em Paris durante a década de 1830.

Outros autores afirmam que a utilização da palavra “socialismo” pela primeira vez designava toda uma forte corrente do pensamento político, que acreditava na necessidade de radicalização do modelo de democracia pregado pela burguesia como ideal para substituir o regime monárquico despótico. Os partidários desta corrente eram conhecidos como democratas radicais, cooperativistas ou comunistas.

A partir do aparecimento “oficial” das palavras “socialismo” e “comunismo”, pode-se definir o século XIX como o marco zero para a construção de uma História do Socialismo, ou poderíamos dizer que seu início se deu desde o surgimento da civilização? Torna-se adequado aqui separar algumas possíveis leituras:

O socialismo desde a Antiguidade: Alguns pesquisadores identificam a existência do socialismo, como teoria e como prática, desde a Antiguidade, entendido como a preocupação por uma sociedade que suprimisse as desigualdades entre os homens. Nesse sentido, encontramos uma ideia que pode ser vista no passado remoto da História Universal. Seria possível localizar o aspecto teórico através do pensamento de Platão (que nos falava de um estado da natureza baseado na igualdade entre os homens), dos estoicos e do cristianismo. Em relação aos aspectos práticos, o socialismo remeter-se-ia às formas primitivas de organização das sociedades gregas e hebraicas.

Socialismo dos primeiros cristãos: Existem autores que defendem a ideia da existência de práticas socialistas (agrupamentos comunais) entre os primeiros cristãos. Os ensinamentos do cristianismo, e mesmo a vida comunal dos primeiros cristãos, teriam influenciado poderosamente diversas revoltas camponesas do fim da Idade Média.

Socialismo moderno: Outras visões presentes na leitura das origens do socialismo sugerem-no como filho da França do século XVIII. O socialismo moderno teria sido também influenciado fortemente pelo materialismo proveniente da Inglaterra no século XVII. O socialismo tal como é entendido em nossos dias entraria na História apenas em meados do século XVIII. A princípio representava um papel secundário, pois o elemento fundamental do momento era a Revolução Industrial, acompanhada de suas longas jornadas de trabalho, expulsão de camponeses de suas terras, fome e exploração de mulheres e crianças. As ideias socialistas seriam uma consequência da miséria presente, apresentar-se-iam como o grito de revolta em busca de dignidade.

A partir dos elementos até então apresentados, podemos avançar questionando: afinal, qual socialismo tomamos por referência? O socialismo pode ser identificado com qualquer forma de pensamento que tenha por princípio a negação da propriedade privada?  Ou o que define o socialismo é sua luta contra a desigualdade social e a defesa da repartição dos bens entre aqueles que produzem para uma sociedade? O socialismo pode ser resumido a uma organização religiosa que compartilhe seus bens entre os membros?

Talvez a melhor forma de abordarmos a questão é tratarmos a respeito das tendências presentes nos movimentos camponeses na fase de transição do feudalismo para o capitalismo na Europa. Pode-se pensar também na política agrária da esquerda jacobina durante a Revolução Francesa.  Vários momentos camponeses foram vistos na Europa Ocidental, Central e Oriental nos séculos XV ao XVIII, organizados em movimentos que tinham por característica a reivindicação de acesso às terras pelos trabalhadores do campo. Mais especificamente sobre a política agrária da ala radical jacobina, pode-se dizer que não houve a eliminação da propriedade privada, mas uma política que possibilitava a repartição da propriedade e a facilitação ao acesso às terras para os camponeses que passavam, então, a ser proprietários.  Não podemos falar ainda de socialismo ou comunismo, mas de uma tradição de igualitarismo agrário que passou a ser defendida. O movimento campesino daquele período, dessa forma, influenciou na construção de organizações de trabalhadores urbanos do século XIX.

Para estabelecer uma possível História do Socialismo é importante partir de uma definição do que seja socialismo e/ou comunismo. Assim como o conceito de Democracia foi modificado ao longo do tempo, pode-se afirmar que o conceito de socialismo também se modificou?

Os sentidos que adotarmos atualmente em relação aos termos “socialismo” e “comunismo”, certamente não serão os mesmos  das práticas denominadas posteriormente de socialistas por aqueles que foram os primeiros defensores e propagandistas deste sistema nos séculos XVII e XVIII. Concepções diferentes daquele período foram abrigadas sob a mesma definição, ainda que houvesse ideias distintas entre os principais teóricos. Porém, existia algum fator em comum entre os “socialismos” que se apresentavam?

Alguns teóricos do século XIX separavam os movimentos socialistas a partir da diferenciação entre os adeptos dos sistemas considerados utópicos (owenistas na Inglaterra,  fourieristas na França e  vários outros agitadores sociais que pretendiam remediar os males sociais sem confronto direto com o capital) e os comunistas,  aqueles que defendiam uma completa mudança social de forma radical, ou seja, basicamente o movimento ligado aos grupos operários revolucionários.

Caso se observe a História do Socialismo a partir dessa óptica, temos que socialismo não é necessariamente sinônimo de movimento revolucionário comprometido com a construção de uma sociedade nova. Tal concepção é marcada na obra “O Manifesto do Partido Comunista”, em que os autores (Marx e Engels) realizam uma tipologia do socialismo que vai desde socialismo feudal até a noção de socialismo conservador.

Diante disso, é possível admitir que a palavra socialismo possa se referir a qualquer movimento que defenda que as relações entre os seres humanos sejam pautadas por melhores condições de vida, de trabalho e distribuição de bens, mas não necessariamente comprometida com a real transformação da estrutura econômico-social da sociedade na eliminação da propriedade privada dos meios de produção e no fim das relações de exploração e dominação.

Entretanto, pode-se questionar até que ponto seria válida a separação realizada por Marx e Engels entre socialismos e comunismo, à medida que é necessário ter em vista o projeto político de construção de um “socialismo científico” no qual os pensadores estavam comprometidos. Deste modo, é importante questionar o quanto as classificações e diferenciações não eram feitas somente para afirmar o movimento operário realmente comprometido com a transformação real da sociedade, mas também com o objetivo de negar o que se expressava de modo diferente, discordante e, assim, afirmar o que eles compreendiam enquanto a verdadeira e a correta doutrina científica do socialismo.

De maneira a avançar no debate, talvez fosse interessante ter a noção de que a doutrina política e as organizações trabalhistas de massa em sua forma moderna são produtos do século XIX. Começaram no início da era industrial, como um protesto contra a miséria do sistema fabril que tinha rompido com o padrão tradicional de atividade econômica e depois como meio pelo qual a imensa massa de explorados que crescia diariamente podia se defender dos patrões que exigiam o máximo esforço em troca de salários praticamente inexistentes.

É importante frisar que o socialismo foi amadurecendo com a difusão do capitalismo pelo mundo, os esquemas denominados utópicos dos primeiros pensadores foram abandonados com o passar do tempo e passou-se a elaborar uma acusação mais sólida e completa da sociedade capitalista, marcada por sucessivas guerras e crises financeiras. A segunda metade do século XIX foi um período fervoroso, marcado por discussões de grupos rivais que avançavam na tentativa de resolver os principais problemas teóricos do socialismo e estabeleceram os fundamentos dos movimentos populares que conhecemos até hoje. A partir dos anos de 1870, houve uma dedicação ao refinamento teórico, à busca por estender as doutrinas e a resolução das dificuldades táticas que nasciam do crescimento de sua força em diversos países.

Ainda que venhamos definir o início do socialismo como intimamente ligado à Revolução Industrial e ao advento das formas consolidadas do capitalismo (mantidas até hoje), deve-se ter clareza das influências recebidas ao longo da história. Afinal, não há novidade na noção de que a miséria e a injustiça são o resultado da divisão da sociedade em ricos e pobres. Podemos encontrar  na literatura europeia uma crença bastante comum, até o estabelecimento da industrialização, numa idade de ouro perdida, em que os homens viviam uma vida pastoral simples em propriedades comuns a todos. O socialismo, tanto quanto qualquer outro pensamento contemporâneo, possui suas heranças.


Desdobramentos do pensamento Iluminista

O movimento conhecido como Iluminismo transformou o pensamento ocidental ao tentar romper com as explicações religiosas sobre a organização do mundo físico e social. Os iluministas acreditavam que o mundo físico seria regido por leis naturais e imutáveis e que todos os fenômenos de ordem da natureza poderiam ser explicador por essas leis. A sociedade, todavia, não obedeceria a nenhuma lei imutável. Ela se apresentaria pela forma como as pessoas a fizeram, portanto, poderia ser modificada quando fosse vontade da maioria.

Antes do iluminismo, as diferenças sociais eram explicadas pelo preceito da religião, que atribuía à vontade divina toda a realidade social, afirmando que a pobreza e as diferenças sociais eram uma provação pela qual os pobres deveriam passar, encontrando a recompensa no céu. Algumas vertentes da doutrina protestante defendiam que o enriquecimento era um sinal de salvação, colocando os pobres na condição de almas que não mereciam ser resgatadas. Dentre as mais diversas fórmulas, o que permanecia era a responsabilização da condição de miséria ao miserável, pois esse era merecedor do castigo divino. Toda essa estrutura explicativa possibilitava forte liberdade de ação dos grupos dominantes, que se utilizavam desse argumento para justificar qualquer abuso que cometiam.

Quando os pensadores do iluminismo sugerem que a religião e seus conceitos deveriam ser reservados às reflexões íntimas de cada pessoa, sendo a crença ou não em deus algo de foro pessoal, abre-se a possibilidade de pensar a sociedade e a política através da razão e não mais da religião. A sociedade passa a ser vista como construída pelas pessoas, que são as responsáveis por estabelecer as regras de funcionamento e de existência da organização social.

Quais desdobramentos haverá então? Ora, se a sociedade é injusta é porque assim foi criada por todos e, nesse sentido, somos capazes de desfazê-la e construí-la de outra maneira, talvez mais justa. Os homens fazem a história! O iluminismo apontou algo que não era reconhecido. O socialismo moderno é fortemente influenciado pela consciência de que podemos identificar os males sociais e modificá-los.

Alguns precursores do socialismo moderno

Jean-Jacques Rousseau (1712 – 1778)  – Filósofo iluminista, foi um dos pensadores mais vorazes de sua época, com críticas à sociedade burguesa, em defesa das camadas mais populares e de uma sociedade baseada na justiça, na igualdade e na soberania do povo. Rousseau acusava a propriedade privada de ser o “agente corruptor” do homem. Ela seria a destruidora da liberdade social, da democracia e seria a construtora do despotismo, das desigualdades sociais e da corrupção da sociedade. Propunha uma sociedade onde os homens fariam um contrato social, pelo qual cada indivíduo concordaria em se submeter à vontade geral, à da maioria. Portanto, prevaleceria a vontade da comunidade e não a de um indivíduo ou a do mercado. Assim, cada um se uniria a todos e o homem seria livre, com direitos iguais para todas as pessoas.

Conde Claude Saint-Simon (1760 – 1825) pensador pré-socialista francês, era um liberal avançado e revolucionário educado por D’Alembert com uma formação racionalista. Elaborou a ideia de que se os trabalhadores parassem de trabalhar de repente, os ricos não teriam o que usufruir. Provaria assim, a importância dos operários. Se todos os patrões deixassem de existir, os trabalhadores continuariam. Na sociedade idealizada por Saint-Simon não haveria mais os ociosos (militares, clero, nobreza) nem a exploração do homem pelo próprio homem. Essa sociedade seria dividida em três classes – os sábios, os proprietários e os que não tinham posses – e seria governada por um conselho de sábios e artistas.

Charles Fourier (1772 – 1837) pensador francês, filho de comerciantes, absorveu algumas ideias de Rousseau: o homem nasce puro e bom, a sociedade e as instituições o corrompem. Fourier propôs uma sociedade baseada nas falanges e falanstérios, fazendas coletivas agroindustriais, onde todos desempenhariam suas tarefas em proveito da comunidade. Nessa sociedade criar-se-ia a falange, com até dois mil homens que trabalhariam para um fundo comum. A divisão das riquezas produzidas seria feita considerando-se a quantidade e qualidade do trabalho de cada indivíduo. Cada falange possuiria seu edifício comum, o falanstério, que abrigaria todos os membros e onde seriam instalados os bens coletivos da comunidade.

Louis Blanc (1811 – 1882) Outro pensador francês. Teve importante participação na Revolução de 1848, quando suas ideias foram colocadas em prática devido à associação entre liberais e socialistas, na tentativa de derrubar a monarquia. Eis elas: seriam criadas associações profissionais de trabalhadores de um mesmo ramo de produção, as Oficinas Nacionais, financiadas pelo Estado. O lucro seria dividido entre o Estado, os associados e para fins assistenciais. Enfim, como líder do proletariado, exigia que o Estado se apoderasse do sistema econômico para garantir trabalho e justiça para todos. Porém, os liberais e os socialistas romperam e o Estado fechou as Oficinas Nacionais e anulou todas as reformas feitas em benefício da classe operária.  .

Robert Owen (1773 – 1858) pensador inglês casou-se com uma mulher muito rica e se tornou dono de várias indústrias, e nelas aplicou suas ideias. Diminuiu a jornada diária de trabalho para dez horas, salários aumentados, seus funcionários tinham creches e escolas para seus filhos, além de hospitais. Suas indústrias tornaram-se um modelo de legislação social e seus lucros não pararam de crescer. Feliz e satisfeito com esses resultados começou a defender a criação de uma sociedade comunista com o fim da propriedade privada. Mas essas ideias e atitudes de Owen não estavam agradando a aristocracia inglesa, que o baniu da Grã-Bretanha. Foi para os Estados Unidos e fundou a cidade de New Harmony. Porém, quando regressou à Inglaterra, suas cooperativas estavam falidas. Owen observou de perto as condições desumanas dos trabalhadores e revoltou-se contra as perspectivas vindas com o progresso. Acreditava ser impossível formar-se um ser humano superior num sistema egoísta e explorador.

2. Luta de Classe e Movimento Operário do Início à Cisão:  definindo os Horizontes

Onde tudo começou.

 A partir do avanço das formas de acumulação e produção capitalistas, temos a subsequente crise das formas de trabalho artesanal e camponês. Ainda que viessem resistir e produzir manifestações de rebeldia, observou-se um declínio significativo destas classes. Camponeses e artesãos protagonizam os primeiro atos de resistência ao capitalismo, tanto na crítica da propriedade privada, encontrada nas experiências históricas de resistência ao cercamento dos campos em prol da posse coletiva, como na sua forma de disciplinamento do trabalho que passou a ser determinado pelo tempo e pela produtividade.

Em meio a isto vemos o surgir de um novo sujeito: o operário, trabalhador que não tem a posse dos meios de produção (agora são de propriedade do burguês), e que nem mesmo tem o controle do processo produtivo, o que o faz um trabalhador coletivo em sua origem.

A forma capitalista de produção traz novo sentido à máquina/ferramenta. É nesse período que aparece a possibilidade de empregar inventos como o do escocês James Watt: a máquina a vapor. A ciência e a técnica se aliam a produção. Agora as máquinas ditam o ritmo do trabalho. Estes elementos marcam as mudanças do período histórico definido como Revolução Industrial, localizada na Inglaterra do século XVIII.
O cercamento dos campos e a Revolução Agrícola são outros grandes definidores deste período. Os campos são cercados, produzindo uma concentração da propriedade que possibilitaram a criação de latifúndios capazes de sustentar os grandes centros urbanos em que se localizavam as indústrias. O uso intensivo dos campos liberava a mão de obra dos camponeses, que por sua vez, se deslocavam para as regiões urbanizadas em busca de empregos na indústria.

O surgimento do Movimento Operário, suas primeiras expressões
Com o surgimento da nova forma produtiva, vemos o aparecimento dos primeiros conflitos envolvendo trabalhadores industriais. Trabalho infantil, jornadas de 14 horas, condições insalubres de existência (como por exemplo, casas com muitas pessoas ocupando o mesmo cômodo), salários a níveis baixíssimos e disciplinamento eram algumas das condições enfrentadas pelos trabalhadores. Aos poucos, percebia-se que mudanças efetivas só eram possíveis através de luta e organização. Começa a ser forjada a percepção da “questão social”, entendida como a luta de classes.

A primeira forma que se tem registro de enfrentamento entre operários e capital é o Luddismo. O termo vem de Nedd Ludd, operário que teria iniciado tal prática. A quebra das máquinas ocorria devido ao desemprego a elas atribuído, pois assumiam o posto de trabalhadores em algumas funções. Tal prática é registrada no século XIX, aparecendo com vigor por volta dos anos de 1811 e 1812. Leis são editadas no parlamento inglês contra tal prática, mas mesmo sujeitos a punições de morte, a quebra de máquinas continuou a acontecer.

Em 1819 temos mais um episódio importante para a história da luta de classe. Na Inglaterra, mais exatamente em Manchester, uma manifestação de rua reivindicando a diminuição dos impostos é respondida com brutal violência estatal. Foram 11 mortos e cerca de 400 feridos. Tal evento se destaca devido à violenta resposta do Estado, e assim fica conhecido como “Massacre de Peterloo” (pois, ocorreu na Saints Peter ‘s Field), em referência a batalha de Waterloo travada contra Napoleão. Tais episódios demonstram os limites da sociedade burguesa e sua democracia frente à organização e reivindicação operária.

Segundo alguns pesquisadores o elemento da consciência de classe aparece entre a primeira república francesa (1793) e a segunda (1848). No movimento inglês, teria sido fundamental a experiência do sindicato dos niveladores no século XVII para o surgimento da consciência de classe.

No início do século XIX, na mesma Inglaterra, um grande movimento de massas trabalhadoras surge denominado de “cartismo”. Tal movimento ganha um teor organizativo político, travando lutas e obtendo conquistas no terreno econômico e político. O movimento ficou assim conhecido, pois elaborava e entregava cartas ao parlamento inglês em meio a massivas manifestações. A organização que encabeçava o movimento se denominava “Associação dos Operários” (fundada em 1836). Os conflitos entre burguesia e aristocracia penderam em beneficio da primeira, que agora possuía o direito de disputar cargos na câmara dos comuns, bem como diminuir o censo¹. A classe operária, que não havia sido englobada nas vitórias democráticas sobre a aristocracia, se organizou em movimento para obtê-las. Desta forma, aparece entre os objetivos cartistas o sufrágio universal. Mais cinco pontos principais compunham a sua pauta apresentada em forma de petição (carta) em 1837: igualdade dos distritos eleitorais, fim do censo, eleições anuais, voto secreto, direito a eleger operários à câmara dos comuns e pagamento dos deputados.

O Surgir do Movimento Operário

Com o surgimento da nova forma produtiva, vemos o aparecimento dos primeiros conflitos envolvendo trabalhadores industriais. Trabalho infantil, jornadas de 14 horas, condições insalubres de existência (como por exemplo, casas com muitas pessoas ocupando o mesmo cômodo), salários a níveis baixíssimos e disciplinamento eram algumas das condições enfrentadas pelos trabalhadores. Aos poucos, percebia-se que mudanças efetivas só eram possíveis através de luta e organização. Começa a ser forjada a percepção da “questão social”, entendida como a luta de classes.

A primeira forma que se tem registro de enfrentamento entre operários e capital é o Luddismo. O termo vem de Nedd Ludd, operário que teria iniciado tal prática. A quebra das máquinas ocorria devido ao desemprego a elas atribuído, pois assumiam o posto de trabalhadores em algumas funções. Tal prática é registrada no século XIX, aparecendo com vigor por volta dos anos de 1811 e 1812. Leis são editadas no parlamento inglês contra tal prática, mas mesmo sujeitos a punições de morte, a quebra de máquinas continuou a acontecer.

Em 1819 temos mais um episódio importante para a história da luta de classe. Na Inglaterra, mais exatamente em Manchester, uma manifestação de rua reivindicando a diminuição dos impostos é respondida com brutal violência estatal. Foram 11 mortos e cerca de 400 feridos. Tal evento se destaca devido à violenta resposta do Estado, e assim fica conhecido como “Massacre de Peterloo” (pois, ocorreu na Saints Peter ‘s Field), em referência a batalha de Waterloo travada contra Napoleão. Tais episódios demonstram os limites da sociedade burguesa e sua democracia frente à organização e reivindicação operária.

Segundo alguns pesquisadores o elemento da consciência de classe aparece entre a primeira república francesa (1793) e a segunda (1848). No movimento inglês, teria sido fundamental a experiência do sindicato dos niveladores no século XVII para o surgimento da consciência de classe.

No início do século XIX, na mesma Inglaterra, um grande movimento de massas trabalhadoras surge denominado de “cartismo”. Tal movimento ganha um teor organizativo político, travando lutas e obtendo conquistas no terreno econômico e político. O movimento ficou assim conhecido, pois elaborava e entregava cartas ao parlamento inglês em meio a massivas manifestações. A organização que encabeçava o movimento se denominava “Associação dos Operários” (fundada em 1836). Os conflitos entre burguesia e aristocracia penderam em beneficio da primeira, que agora possuía o direito de disputar cargos na câmara dos comuns, bem como diminuir o censo¹. A classe operária, que não havia sido englobada nas vitórias democráticas sobre a aristocracia, se organizou em movimento para obtê-las. Desta forma, aparece entre os objetivos cartistas o sufrágio universal. Mais cinco pontos principais compunham a sua pauta apresentada em forma de petição (carta) em 1837: igualdade dos distritos eleitorais, fim do censo, eleições anuais, voto secreto, direito a eleger operários à câmara dos comuns e pagamento dos deputados.

Em 1842, três milhões assinaram a petição reivindicando o sufrágio universal que é negado pelo parlamento. Em 1848, com cinco milhões de assinaturas, não somente é negada a petição, como o exército é mobilizado para reprimir a manifestação. As conquistas do movimento operário desta época, em especial do cartismo, são várias: proteção do trabalho infantil (1833), lei de imprensa (1836), reforma do código penal (1837), regulamentação do trabalho feminino e infantil (1842), supressão a direito de cereais e lei permitindo associação operária (1846), jornada de trabalho de 10 horas (1847).

Em 1842, três milhões de pessoas assinam a petição reivindicando o sufrágio universal que é negado pelo parlamento. Em 1848, tiveram-se cinco milhões de assinaturas e desta vez não somente é negada a petição, como o exército é mobilizado para reprimir a manifestação.

A importância do cartismo para a formação do movimento operário no mundo, em especial na Inglaterra é inegável. O movimentou solidificou as bases para organização das primeiras Trad Unions (sindicatos), por ramo produtivo, lançando as bases para o movimento operário internacional.

Dos precedentes da I AIT

As péssimas condições de trabalho e o aumento da classe operária fizeram com que fosse percebida a necessidade de auto-organização pelos trabalhadores visando enfrentar e arrancar conquistas frente a seus opressores. Surgiram livre associações de trabalhadores por todos os países da Europa e posteriormente nos outros continentes.

Não demorou muito para que os trabalhadores percebessem que a opressão que sofriam não tinha fronteira, e que independente do local em que se encontravam os patrões exploravam os trabalhadores. Nesse sentido, os trabalhadores logo notam que sua luta não deveria se resguardar aos limites nacionais. O exílio também auxiliou na criação de uma identidade internacionalista, na medida em que trabalhadores de várias nacionalidades passam a compartilhar suas experiências de perseguição, decorrentes das lutas encabeçadas em seus países de origem.

Um dos primeiros registros que se tem arquivado de manifestação de solidariedade classista internacional é a dos operários de Nantes (França), em 1834, que escrevem a operários ingleses “os operários de todos os países são irmãos”. Em 1836, trabalhadores de Londres (Inglaterra) escreveram correspondências a operários de outros países.

Vemos surgir, em 1852, o grupo Comuna Revolucionária que teve papel fundamental para organização da AIT, pois iniciou uma tradição de organização operária que rompe com o republicanismo radical. Tal grupo se consolidou na Associação Internacional (1855-1859). Formado por refugiados franceses, poloneses e alemães que se somaram aos cartistas ingleses, a Associação Internacional foi a última tentativa de organização que contou com operários de diversos locais da Europa antes da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores)

 

I AIT

Em 1862, Napoleão III envia trabalhadores à Inglaterra para que estes participassem da Mostra Internacional de Londres. Em seu gesto de aproximação ao governo inglês, mal sabia Napoleão III que desencadeava um processo de organização operária, propiciado pela viagem de trabalhadores franceses à Inglaterra. Tal “expedição” francesa permitiu a aproximação de trabalhadores ingleses e franceses. No ano seguinte retornaram os operários franceses à Inglaterra para uma reunião que discutiu a independência polonesa.

Em 1864, trabalhadores franceses foram novamente à Inglaterra para que em 29 de setembro, na reunião em Saint Martin Hall fosse fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores. Se não a primeira tentativa de organização internacional dos trabalhadores, sem dúvida, a que obteve maior sucesso até o momento. Pode-se inclusive afirmar que esta foi uma das mais bem sucedidas experiências de solidariedade internacionalista das classes produtoras.

No interior da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores), surgiu o socialismo revolucionário como prática política. Foram lançadas aquelas que seriam as bases para a derrocada da sociedade de classes (burguesa) e a supressão da exploração e dominação das classes subordinadas.

Foram nos primeiros quatro congressos que vimos esboçadas as linhas de superação da sociedade capitalista. Tais congressos foram em: Genebra (1866), Laussane (1867), Bruxelas (1868) e Basileia (1869). Nos congressos iniciais vimos em destaque a tendência daqueles que eram os seus fundadores, os franceses – tal tendência se denomina “mutualismo”. Os “mutualistas” desejavam derrotar o capitalismo pela livre associação dos trabalhadores (por exemplo, a partir de cooperativas). Tal linha começa a ser enfrentada pelos “coletivistas” (socialistas revolucionários da ala federalista, denominados libertários) logo no segundo congresso. Já no terceiro congresso, as teses libertárias ganharam força e passaram a ser a linha da organização.

O coletivismo tinha como perspectiva destruir a propriedade privada e o Estado por meio de uma tomada (violenta se necessário) dos meios de produção. Assim, tal modo de organização projetava nas associações de resistência os embriões da nova sociedade. Era necessário preparar, educar e, por fim, fazer com que a classe explorada tomasse diretamente os meios de produção.

A partir deste momento a tendência coletivista passa a entrar em confronto com outra tendência socialista revolucionária que é denominada como Comunismo de Estado, também chamado de socialismo autoritário. Em 1871, liderado pelo Conselho Geral da AIT convocou-se uma conferência privada. Tal conferência, feita na cidade de Londres, contou com 22 delegados: 13 do conselho geral e 9 de outras seções, caracterizando um baixo número de delegados. Nesse espaço, as forças do Comunismo de Estado encontravam-se favorecidas pela localização da conferência, pois Londres era o local da sede do Conselho Geral. Cabe destacar que a repressão internacional à Comuna de Paris e aos communards fazia ainda mais difícil a presença de delegados na conferência. Em Londres, foi tirada a resolução que “(…) os trabalhadores devem reconhecer, não menos que a solidariedade econômica como a solidariedade política que os une, e coligar suas forças não menos no terreno político que no terreno econômico para o triunfo de sua causa.”. Na prática esta resolução impunha a todas as seções da AIT que disputassem o parlamento como via de acúmulo de força social, ou “etapa” do movimento revolucionário. O “centralismo” tático promovido pelo Conselho Geral provocou tensões no interior da AIT. Antevendo a possível divisão da organização, no mesmo ano, os setores federalistas organizaram uma conferência em Sonvillier (Suíça).

Dessa forma, as discordâncias se aprofundaram, e as seções de composição “coletivista” (federalista) se recusaram a seguir tal diretriz. Sua recusa ocorreu pela crença em que a luta proletária e sua unidade se dão no campo econômico, da solidariedade de classe, e não em disputas do aparelho estatal, onde as diferenças ideológicas podem cindir a classe oprimida e colocá-la em uma luta infértil pela escalada ao aparelho burguês do Estado. De acordo com a perspectiva coletivista, a classe, deveria se organizar para a tomada dos meios de produção. A “centralização” tática fez com que tais seções coletivistas se recusassem a dar cabo da deliberação da conferência de Londres, que por conta de uma conjuntura de exceção tinha valor congressual da AIT. A consolidação do “racha” se deu no congresso seguinte, o de Haia (1872). Encabeçados por influentes membros do Conselho Geral, arquitetou-se a expulsão de dois proeminentes militantes “coletivistas” (Mikhail Bakunine e James Guillaume) – expulsos pela acusação de manterem uma outra organização no interior da AIT (a Aliança da Democracia Socialista) e de se recusarem a unir as federações do Jura (Suíça) a de Genebra (Suíça).

A federação Genebrina basicamente organizava candidaturas “operárias”, enquanto a do Jura se abstinha do processo eleitoral burguês e buscava a organização dos operários para a luta econômica.

O Congresso de Haia, com a “simbólica” expulsão de expoentes do coletivismo (ala federalista, socialistas libertários) acabou por cindir a AIT. Ficou expresso nesse Congresso a linha autoritária: “Em sua luta contra o poder coletivo das classes possuidoras, o proletariado não pode agir como classe senão se constituindo como a si mesmo em partido político distinto, oposto a todos a todos os antigos partidos formados pelas classes possuidoras.”. Os que ficam junto às resoluções do Congresso de Haia, decidiram por transferir o Conselho Geral para Nova York (E.U.A), enquanto que a ala federalista promoveu um novo congresso no mesmo ano na cidade de Saint Imier.

 

Cisão: Dois Horizontes Distintos, Socialismo Autoritário e Socialismo Libertário

Vemos que a AIT que ficou sobre domínio dos setores do Comunismo de Estado declarar seu fim em 1876, após uma série de fracassos acentuados na tentativa de dar continuidade à associação em um país que não tinha um expressivo movimento operário (E.U.A). Os setores que ficaram ao lado desta proposta eram minoritários mesmo no movimento operário europeu. Compuseram a AIT “autoritária” hegemonicamente seções inglesas, alemãs e suiço-alemãs.

Do lado “anti-autoritário”, aglutinaram-se além dos coletivistas, setores do movimento que discordavam das práticas parlamentares. As seções que formaram a AIT anti-autoritária eram belgas, espanholas, francesas, suíço-romanicas e italianas. No Congresso de Saint Imier (15 de setembro de 1872), logo após o fatídico congresso de Haia (Holanda), temos a consolidação e formação histórica da corrente libertária do movimento operário internacional. As resoluções deste primeiro congresso estabeleceram que “a autonomia e a independência das federações e seções operárias são a primeira condição de emancipação dos trabalhadores” e que os proletários de todos os países devem estabelecer-se fora de toda política burguesa.

No congresso subseqüente, de 1873, decidiu-se por fim ao Conselho Geral, devido ao seu papel centralizador, e criar uma “secretaria” que tinha como fim distribuir as informações. Nos congressos dos anos de 1874 e 1876 consolidou-se a linha descentralizadora (federalista).

Deste período para frente, vemos uma crescente desarticulação da AIT anti-autoritária, com exceção de algumas seções que passam a existir com mais vivacidade como, por exemplo, a italiana, as do novo continente e a espanhola – que vive seu período de maior agitação organizativa. Quando já “morta” a AIT anti-autoritária, no que tange uma existência real nas bases do movimento operário europeu, em seu nono congresso (1877), encontram-se significativas presenças de delegações da Argentina, México e Uruguai. A solidariedade de classe havia se espalhado pelo globo. Já em 1881, o congresso “sem futuro”, que animava muito pouco os militantes em torno de sua capacidade resolutiva, acaba por servir para a organização operária nos E.U.A. (mesmo local onde havia sido enterrada a AIT socialista autoritária). Tendo como resultado a articulação de setores libertários nos E.U.A., dois anos depois com a International Working Peoples Association (1883). A IWPA se constitui como um racha do Socialist Labor Party, partido de orientação parlamentarista vinculado aos setores estatistas.

Tivemos um hiato da participação libertária nos movimentos sindicais de massa expressivos. A influência foi retomada em meados do século XX, sob forte inspiração das bases organizacionais que a AIT e sua ala federalista lançaram. Podemos afirmar que neste período consolidaram-se as bases de atuação do movimento dos explorados.

Teremos um hiato na participação libertária nos movimentos sindicais de massa expressivos após o fim do século XIX. Veremos esta influência retomada em meados do século XX, sob forte inspiração das bases organizacionais que a AIT e sua ala federalista lançou. Podemos afirmar que temos neste período consolidadas as bases de atuação deste setor no movimento dos explorados.

1-Censo: eram estipuladas rendas mínimas para os votantes naquele momento, fazendo com que as eleições contassem somente com as altas classes.

 

Leia e assista:

Leia: História do Movimento Operário Revolucionário.Diversos autores. Tradução Plínio Augusto Coelho.São Paulo: Imaginário; São Caetano do Sul: IMES, Observatório de Políticas Sociais, 2004. (Citações deste tópico retiradas desta obra)

A Internacional Documentos e Recordações 1. James Guillaume. Tradução Plínio Augusto Coelho. São Paulo: Faísca Publicações Libertárias, 2009

Assista: Germinal de Claude Berri, 1993

Baseado no romance homônimo de Émile Zola, o filme aborda os movimentos grevistas de um grupo de mineiros, no norte da França durante o século XIX, contra a exploração de que eram vítimas. Entretanto, ao se levantarem contra o sistema, passam a serem alvos da repressão das autoridades.

 

3. A Comuna de Paris e a Primeira Experiência de Autogoverno Operário

Após o afogamento da Segunda República (1848) e a ascensão de Luís Bonaparte¹ à direção política da França as políticas externas francesas mergulham em conflito com a Prússia de Bismarck².

Quando o parlamento espanhol indicou Leopoldo, primo do Rei da Prússia Guilherme I – o que aumentaria a influência prussiana sobre a Espanha – foi o que deu início a disputa entre as duas nações. Descontente com esta situação, Napoleão III pressiona Guilherme I para que este assumisse o compromisso de que não permitiria que parentes seus aceitassem a coroa espanhol e o mesmo aceita tal demanda. Napoleão III ainda exigiu um acordo formal junto a seu embaixador, buscando estender a tensão. Guilherme I não cumpriu o acordo e Napoleão III declara tal medida como uma afronta à França. A França profere discursos belicosos contra a Prússia o que acirra os ânimos entre as nações. Otto Von Bismarck, que se interessava no conflito com a França pela possibilidade de unificar a Alemanha, falsificou um telegrama do Rei Guilherme I dando um tom ofensivo ao governo francês, o que acabou por desencadear a guerra Franco-Prussiana. Tal guerra iniciada pela França dura de 19 de julho de 1870 a 10 de maio de 1871.

A Alemanha, agora unificada, sai vitoriosa, enchendo seus cofres com uma boa quantia imposta pela multa de guerra à França e anexando a região da Alsascia-Lorena (rica em minerais). Com a capitulação de Sedan (última batalha), onde o próprio Napoleão III é feito prisioneiro, é dado fim à monarquia e iniciada a Terceira República Francesa. Com a derrubada de Napoleão III e instauração da Terceira Republica, a qual foi dirigida por Thiers³, vemos a França abandonar o conflito de forma vexatória e com isto diluindo a guarda nacional.

Ao tomarem a cidade e organizarem sua defesa, os trabalhadores logo passam a colocar em prática as ideias maturadas na AIT, mesmo a maioria dos componentes da “Comuna de Paris” não sendo socialistas revolucionários, vários membros da AIT participaram ativamente da Comuna e influenciaram sua organização. Vemos uma forte influência dos setores federalistas na Comuna, tanto em seus textos, como em seu modo organizacional. A política passou a ser realizada por mandatos revogáveis e que deviam representar a opinião de seu distrito (delegação direta), tendo todos os distritos direito de eleger seus delegados.

Algumas das transformações político-econômicas – as que eram possíveis na curta duração da Comuna – que aconteceram durante a Comuna de Paris foram: redução das jornadas de trabalho, fim da pena de morte, criação de um comitê para organizar a ocupação das habitações vazias, igualdade entre os sexos, a separação da igreja dos espaços de administração pública e, principalmente, o desmonte do aparato estatal e substituição da antiga administração centralizada por uma organização federada e sobre controle direto da população.

Sendo as classes dominantes desafiadas por esta experiência, que além de ser um perigo para a França era também para o “mundo” burguês, porque poderia servir (e serviu) de inspiração para que os trabalhadores do mundo inteiro buscassem organizar-se para impor o autogoverno (autogestão) dos produtores. Notado isto, as classes dominantes da França, liderada por Thiers e seu governo versalhense (após a fuga de Paris, o governo Francês se instalou em Versalhes), convencem a Prússia de Bismarck a apoiar uma ofensiva do exército francês sobre a comuna. Após 72 dias de existência, a Comuna é derrotada, Bismarck apóia com sua artilharia e libera 100.000 soldados franceses para que pudessem afogar em sangue a comuna, que contou com heróicos 15 mil milicianos. Em números isso resultou em cerca de 20 mil pessoas executadas (fora as mortes em combate), quarenta mil presas e várias outras deportadas. A unidade internacional das classes dominantes mostra mais uma vez que os de “baixo”, os explorados do mundo, também devem ter sua aliança internacional.

Divergências entre autoritários e libertários sobre a Comuna

Os socialistas autoritários (Comunistas de Estado) se colocaram ao lado da Alemanha na Guerra Franco-Prussiana, pois entendiam que esta iria unificar-se em um Estado Nacional e por consequência iria unificar a classe operária. Os comunistas de estado acreditavam que a vitória alemã significaria a vitória do “socialismo alemão” (socialismo científico de Karl Marx e Friedrich Engels) sobre o “socialismo francês” (de Pierre-Joseph Proudhon), demonstrando a supremacia de um sobre o outro. Os libertários, ao contrário, não tinham lado nesta guerra, não se reconheciam nela, pois afirmavam que era uma guerra das burguesias dos dois países. Assim, os federalistas defenderam como tática utilizar este momento de guerra burguesa para dar início a uma guerra revolucionária, aproveitando da desestruturação do Estado neste período para conduzir um processo revolucionário. Ao contrário dos autoritários, os libertários sempre defenderam uma insurreição operária na França, assim como defenderam a Comuna de Paris mesmo quando esta não era um consenso.

1- Carlos Luís Napoleão Bonaparte (Paris, 20 de abril de 1808 – Chislehurst, 9 de janeiro de1873), Sobrinho de Napoleão Bonaparte, ganha as primeiras eleições após a proclamação da segunda república francesa (1848). Com um golpe de Estado institui o Império- O18 de Brumário- e se intitula o Napoleão III. Cai após seu fracasso na Guerra Franco – Prussiana.
2- Otto Leopold Eduard von Bismarck (Schönhausen, 1 de Abril de 1815 — Friedrichsruh, Aumühle, 30 de Julhode 1898), o “Napoleão da Alemanha”, foi responsável pela unificação da Germânia, o Segundo Reich. Filho de junkers (grandes proprietários de terra da Alemanha), de linhagem nobre, atuou como diplomata e chanceler, político mais importante no século XIX.
3- Louis Adolphe Thiers (16 de Abril de 1797 — 3 de Setembro de 1877) , estadista francês de destaque, assume o poder executivo da 3° república na França, responsável pela organização do massacre a Comuna de Paris.
4- A guarda nacional era composta em sua maioria por operários e a população de Paris, majoritariamente, discordava dos rumos políticos do novo governo em relação à Prússia.

 

Leia e Assista

Leia: Negras Tormentas O Federalismo o Internacionalismo Na Comuna de PAris. Alexandre Samis. São Paulo: Hedra, 2011.

Assista: Entrevista com Alexandre Samis (autor do livro Negras Tormentas) sobre a Comuna de Paris. http://www.youtube.com/watch?v=z6eiruzVyJY

 

Cronologia

– A partir de 1750, desenvolveram-se na Europa as transformações conhecidas como Revolução Industrial, originando as primeiras grandes fábricas industriais, e máquinas passando a utilizar o carvão e a eletricidade.

– 1776 – Independência dos Estados Unidos da América.

– 1789 – Revolução Francesa.

– Primeiro movimento revolucionário socialista, por volta de 1790, a “Conspiração dos Iguais”, tendo como um dos participantes Graco Babeuf. Propunha o fim da propriedade privada através de uma revolução.

– 1811 – Ned Ludd e seus seguidores destroem uma oficina têxtil, inicia em Nottinghan o movimento “luddista”, os destruidores de máquinas, chamadas de monstros de ferro.

– 1830 – Início das formações “trade unions” na Inglaterra, as primeiras associações de operários por categorias; deram origens aos sindicatos.

– 1837 – 1848 – atuação do “cartismo” – movimento popular que reivindica alteração na legislação trabalhista inglesa. Mais ou menos no mesmo período havia na França as sociedades secretas revolucionárias que participaram das revoluções de 1830 e 1848, entre eles, Auguste Blanqui.

– Em 1840 Proudhon publica “O que é propriedade?” um estudo sobre os defeitos da propriedade privada sobre a desigualdade e a liberdade humanas. Louis Blanc também desenvolvia, no mesmo período, formulações teóricas socialistas.

– Surgimento, a partir de 1840, da “Liga dos justos” organização socialista de trabalhadores.

-1841 – início das atividades políticas de Bakunin.

– 1846 – Proudhon lança “Filosofia da Miséria”, contra o qual Karl Marx escreve “Miséria da Filosofia”.

– 1848 – Proudhoun é eleito para a Assembléia Nacional Francesa. Lançado “O Manifesto Comunista”, por Marx e Engels. Queda de Luís Filipe e inauguração da “segunda república” na França, numa aliança dos republicanos, socialistas e bonapartistas contra a burguesia.

– 1849 – Proudhon funda o “Banco do Povo”, com gratuidade de crédito para os operários e camponeses, conseguindo 27.000 adesões.

– 1851 – golpe do presidente Luís Bonaparte na França, início do “segundo império”.

– 1861 – Unificação da Itália

– Proudhoun publica “Sobre o princípio federativo” em 1863 e “Sobre a capacidade política das classes trabalhadoras” em 1865.

– “O Capital” publicado em 1867, 1885, 1895 e 1905, a principal obra de Marx, expõe os princípios da concepção materialista da história e propõe a socialização dos meios de produção.

– 1864 – é realizado o primeiro congresso da Associação Internacional dos Trabalhadores, em Londres, marcando a organização dos trabalhadores em nível mundial, verifica-se o primeiro choque entre anarquistas e marxistas. Em 1872, em Haia, os anarquistas acabaram expulsos da organização.

– 1868 – Bakunin funda a “Alianças Internacional Democrática Social” entidade de destaque na introdução do anarquismo na Espanha.

– 1870 – Unificação Alemã.

– 1871 – “Comuna de Paris”

– Bakunin escreve “Deus e o Estado” (1871), “Federalismo, Socialismo e Antiteologismo” (1872) e “Estatismo e Anarquia” (1873).

– Acontece em Paris, em 1889, a “II Internacional Socialista” de caráter reformista, com domínio da social democracia.

– Publicada a encíclica “Rerum Novarum”, em 1891, uma resposta reacionária aos movimentos anarquista e marxista, pelo papa Leão XIII.

[Retirado do livro: Agulha no Palheiro – reflexões sobre o Anarquismo e sua presença nos livros didáticos – Márcio Luiz Carreri].

 

4. Conclusões

 

Por que Acreditamos?

Antes de afirmar o que definimos como princípios, ou seja, base mínima de acordos, aquilo que independente do período histórico não abrimos mão, e que buscaremos transpor dentro das possibilidades conjunturais em nossas práticas, faz-se necessário algumas observações.

De acordo com a discussão que fizemos até momento, o setor dos movimentos sociais do qual fazemos parte no presente tem seu surgimento nos fins do século XIX e inicio do século XX, em meio à luta dos explorados, até então naquele momento organizados na Associação Internacional dos Trabalhadores. Desta maneira, vemos que nosso campo não surge de reflexões abstratas (ou meramente teóricas), mas das experiências e conclusões de um setor do movimento, que buscava respostas para a “questão social”. Nesse sentido, o esforço destes que podemos afirmar eram nossos antecessores, era de consolidar uma prática coerente com nossos objetivos finalistas, a Revolução Socialista.

Nesse período exploratório e de conformação é que aparecem nossos princípios, como resultado da observação dos fenômenos sociais, afinal estes não surgiram assim como “princípios” prontos, emanados da cabeça de um “idealista” de plantão. Muito pelo contrário, se basearam nas experiências que a classe cumulou  durante os processos de luta cotidiana.

Uma das questões que suscitou diversas polêmicas, e ainda suscita, é a participação dos socialistas revolucionários na política burguesa. O setor com o qual no presente nos identificamos, os libertários, conseguiam perceber o quão nocivo era à entrada de “operários” nos parlamentos europeus, pois além de pouco realizar no que tange as conquistas da classe, eram pouco a pouco “aburguesados” ,ou seja, perdiam aquilo que tinham em comum com os outros trabalhadores e os colocava em solidariedade, sua identidade de classe trocada pelos privilégios.  Estes ainda faziam por suscitar a confiança dos trabalhadores no “Estado de direito”, e assim de eleição em eleição renovavam as expectativas republicanas dos de baixo, os arrastando para a ordem legal e afastando de uma real ruptura, impossível sem a tomada dos meios de produção. Assim o setor libertário passa a pregar a “abstenção” política, não no sentido de despolitizar a classe, mas de afasta-la daquilo que era entendido como arena política da burguesia, os parlamentos, câmaras, enfim, o Estado, acreditando que os explorados deveriam somente cuidar da sua política, isto é, construir, organizar e fortalecer os organismos “políticos” (sindicatos, associações, etc.) da classe explorada buscando condições (força organizada) para suplantar a organização da burguesia (Estado & Capital).

Outra viva polêmica se da em torno do modelo de organização do movimento, e a organização da revolução. Desde os momentos iniciais, dos “pioneiros” do socialismo, isto já aparecia como um problema, chegando inclusive esta discussão a ser o elemento central para a cisão da I AIT. Enquanto um setor defendia a “ditadura de classe”, ou seja, a tomada revolucionária do aparato coercitivo do Estado, os libertários, baseados em suas análises, se viam temerosos frente à perspectiva estatista, pois viam nesta a possibilidade da instalação de uma nova “classe” dirigente, que por meio do poder do Estado, tem a possibilidade de se impor como classe dominante. Logo, pensavam que não era possível uma ditadura de classe, mas de um partido que fala em nome da classe. A História parece afirmar as teses. Deste modo o nosso campo estabelece a ideia de destruição do aparato central do Estado, e da tomada direta (ação direta) dos meios de produção, para que com o controle econômico da sociedade, sob domínio das organizações políticas-econômicas da classe (sindicato, associações, etc.), fosse possível a destruição de toda a forma de manutenção da dominação/exploração.

Explicado as nossas motivações, apresentamos os princípios do CQM:

Adaptado de nossa tese ao congresso de estudantes da UFPR em 2011

 

NO QUE ACREDITAMOS

O Coletivo Quebrando Muros identifica que a base organizativa do Movimento Estudantil deve se realizar a partir dos seguintes princípios:

AUTOGESTÃO – forma de organização que tem como fim a participação e execução das atividades por aqueles que são os diretamente interessados; objetiva destruir a alienação a qual nos submete a sociedade capitalista em todos os níveis (político, econômico e social). Tal forma é adotada por nosso coletivo por acreditarmos que para a superação desta sociedade baseada na exploração e dominação se faz necessária à criação de formas de organização que possibilitem a reconstituição das relações de poder presentes no capitalismo;

AÇÃO DIRETA – esta é uma forma de ação política na qual o movimento age por si mesmo, não confiando suas ações políticas a burocratas, representantes políticos, parlamentares, partidos e etc.;

FEDERALISMO – forma de organização, descentralizada do movimento, permitindo a cada base específica analisar e compreender suas questões, com autonomia para suas tomadas de decisão e luta. Não podemos deixar de esquecer, que sim, os libertários acreditam que as lutas têm caráter nacional e mesmo global, e devem ser articuladas nacionalmente, regionalmente (Latino-América) e mundialmente de forma federativa. Na qual, cada base tira sua posição de forma descentralizada e articula as lutas conjuntamente de forma a criar uma centralidade. Assim redimensionando as relações de poder e possibilitando a participação direta da base tendo como meio de decisão a DEMOCRACIA DIRETA.

A HORIZONTALIDADE opera contra a lógica burocrática de organização onde aparecem dirigentes e dirigidos, esta sustenta a essência da prática libertária; onde as representações delegadas reportam-se ao coletivo, do mesmo modo como declamam nossos companheiros Zapatistas: “Mandar obedecendo”.

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