Uma breve avaliação sobre a luta pelo transporte em Curitiba: Vencer o sectarismo é necessário para avançar nas ruas

Nunca antes na história deste país…

              Há alguns anos que não se via as massas saírem às ruas do país contestar as políticas sociais e econômicas. Há pelo menos 10 anos (desde o começo do governo PT), não se tinha registro de lutas massivas por interesses coletivos.

Podemos afirmar que tal revolta tem sua raiz nas demandas reprimidas por esse tempo, de um governo que prometia romper com a política do “tucanato” comprometida com os interesses das classes dominantes (burguesia), e trazer à população reformas que abrangessem os serviços públicos. As reformas em torno dos direitos sociais não só não vieram, como este governo não foi capaz de romper os laços com as classes dominantes (ruralistas, empreiteiros, capital imobiliário, megaempresários) e mesmo com partidos afinados a uma política conservadora como o PMDB. Pelo contrário, o que o governo PT fez foi cooptar os movimentos sociais existentes (UNE, CUT e MST), tirando deles suas forças de mobilização e de enfrentamento ao capital, fazendo com que reformas conservadoras fossem implementadas com maior sucesso que no período anterior, a exemplo das reformas universitária, previdenciária e trabalhista, intensificando as privatizações (aeroportos, portos, hospitais, etc.), garantindo lucros recordes aos banqueiros, sem falar em toda uma agenda de reformas que atacam as classes exploradas em curso. Em resumo, tal governo, como é de se esperar serviu aos fins do Estado, gerindo as contradições, cumpriu seu papel direitinho trazendo a conciliação de classes com “migalhas” para os de baixo, firmando um pacto com os de cima como “nunca antes na história deste país” tinha se visto. A burguesia nunca havia avançado tanto em seus ganhos e passado por cima dos direitos sociais até a chegada do PT no governo.

Deste modo, o mês de junho representa os resultados desta política tocada pelos partidos no poder, em que o estopim para a revolta foi o aumento da tarifa, o qual colocou em curso uma rebelião popular que tem como fundo questões estruturais que vão muito além de 20 centavos.

Não podemos temer as ruas

                Em Curitiba as movimentações começam no dia 13 de junho em um movimento que foi chamado em solidariedade aos movimentos que se iniciaram com mais vigor em São Paulo, Rio de Janeiro, Goiânia e Porto Alegre, para logo se espalhar por todo Brasil e se tornar uma onda de protestos populares. No dia 17 temos o ápice deste movimento em Curitiba com cerca de 20000 pessoas nas ruas, manifestação de tamanha proporção não era vista desde 1992, no fora Collor. A partir daí se sucederam manifestações ao menos semanais na cidade que contavam com número menor de manifestantes, mas que ainda se somavam quantidades relevantes. Tal movimento foi responsável por baixar a tarifa de R$2,85 para R$2,70, 15 centavos, fato relevante na história dos movimentos pelo transporte público ocorridos na capital paranaense, sendo ilustrativo da força das ruas.

A mídia como em todo país, não atuou de forma diferente em Curitiba, alinhando-se com a agenda conservadora das direitas tradicionais, buscou dar um tom ufanista a este movimento, injetando suas pautas conservadoras que tem como objetivo as disputas eleitorais de 2014. Tal influência nefasta da mídia corporativa, somada a ação de grupos conservadores que se infiltravam nos atos, aproveitando-se de um sentimento antipetista, fizeram por incitar parte dos manifestantes contra a esquerda e suas bandeiras em geral. Tal clima gerado por tentativa de disputar e hegemonizar o movimento por parte da direita acarretou em certa insegurança na militância de esquerda, que se unificou para atuar nos atos.

Todavia, um equívoco interpretativo fez com boa parte da esquerda assumisse a postura reativa frente ao movimento, taxando uma grande massa manifestante como reacionária, se esquecendo de sua responsabilidade histórica de organizar o povo oprimido, pois se por um lado o PT cooptou os aparelhos de luta das classes exploradas e as desarmou, por outro, à esquerda para além do PT pouco fez para organizar esta massa que segue sem referenciais organizacionais, culminando em um movimento que vai para as ruas sem organicidade e em revolta espontânea contra este modelo político.

Não podemos nos esquivar de nossas responsabilidades, é também nossa culpa a desorganização deste movimento, e mesmo seus “vacilos” ideológicos, devido à falta de referencial desta massa nas organizações de esquerda. Lembramos de que este é o nosso dever militante, organizar e formar a opinião dos manifestantes, se não, de que valem nossas organizações?

Um veneno para as lutas: o sectarismo entre a esquerda

                Como vimos em outras cidades (ex: Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo, Goiânia, etc.) esta luta poderia (ou ainda pode) ter avançançado muito mais, tanto nas conquistas (ex: passe livre em Goiânia e região metropolitana de POA), como na aplicação da ação direta avançada (ocupação de câmaras em Belo Horizonte e Porto Alegre).

Desde a composição da Frente de Luta pelo Transporte, no dia 15 de junho, o objetivo desta era unificar os lutadores, em especial aqueles das organizações de esquerda, pois já bastava o divisionismo que tentavam se instalar neste movimento por parte dos governistas, como da mídia corporativa (direita).

Avaliamos que o receio frente a um movimento espontâneo que ganhava contornos duvidosos ao rumo que se seguiria e a impossibilidade de hegemonização destes atos por parte de um grupo ou outro fizeram com que a esquerda tomasse posturas vacilantes. Se por um lado vacilamos frente às disputas que deveríamos ter travado anteriormente para definirmos os rumos deste movimento, mas que posteriormente demonstraram ter um viés reivindicatório de pautas que podemos considerar de esquerda (revogação do aumento da tarifa, transporte, saúde, educação públicos, contra a copa e seus crimes, etc.), por outro vemos o despreparo da esquerda para lidar com esta escala de movimento (movimento de massas). Quando as principais ações da esquerda são relacionadas às suas disputas mesquinhas por direções de entidades esvaziadas de base social e mesmo legitimidade, por suas fratricidas disputas em busca de fortalecer suas siglas, onde a busca por adeptos a seus grupos se põe acima da construção de um movimento que possa se massificar, vemos que todos estes elementos fazem com que não consigamos, de forma unida, influenciar um movimento que poderia ter muito mais força, radicalidade e eficiência.

Tal falta de maturidade e foco nas lutas populares revela um despreparo da esquerda de Curitiba para ocupar seu papel em momentos decisivos. Sabemos que este movimento surgiu de maneira espontânea e em separado das tradicionais entidades e organizações de esquerda, exigindo improviso e respostas rápidas no calor da luta. Nossos erros não vêm servir para nos condenar, mas para que frente a eles tomemos uma postura reflexiva, para que avancemos em nossa organicidade. Se não desenvolvermos nossa potencialidade conjunta neste movimento, em um momento em que sabemos que as lutas se intensificarão (copa 2014, olimpíadas, crise econômica) estaremos confusos, desunidos e com pouca capacidade de influência. Mas caso dermos atenção e prioridade a nossa organização frente ao que está por vir, poderemos corrigir nossos erros passados e construir um movimento massivo enraizado nas pautas reivindicatórias e transformadoras, que são da esquerda.

Erramos em não nos unificar na ação, perdemos o “bonde da história” neste movimento que poderia ter ido bem mais longe, se soubéssemos inovar nas táticas. Nós do Quebrando Muros não nos ausentamos de tal autocrítica, pois nos vemos dentro da esquerda, e temos parte desta responsabilidade. Deste modo, propomos a unidade da esquerda frente ao movimento da luta de massas, uma unidade que não se fará em salas a portas fechadas, mas na prática combativa, na construção fraterna e solidária que não nos dilui em meio às massas, mas que possibilita potencializar o poder de influência da esquerda em torno de suas confluências, afinal “uma andorinha só não faz verão”.

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