CARTA ABERTA À POPULAÇÃO E À COMUNIDADE UNIVERSITÁRIA

 

Retirado de: http://www.sinditest.org.br/noticias_detalhe/1/geral/1834/carta-aberta-a-populacao-e-a-comunidade-universitaria

A partir do dia 17 de março, os servidores técnico-administrativos da UFPR, UTFPR e Hospital de Clínicas entram em greve por tempo indeterminado

No país do futebol, da corrupção e da desigualdade social, que lugar está reservado para a educação e a saúde públicas?
Nós, servidores técnico-administrativos das universidades federais, recebemos os mais baixos salários de todo o poder executivo. O vencimento básico de um Assistente em Administração recém-admitido na universidade não ultrapassa 1.950,00 reais, ou seja, é inferior a três salários mínimos. Apesar disso, são esses trabalhadores que realizam as funções administrativas nas coordenações de curso, bibliotecas, departamentos, pró-reitorias, nas seções de execução orçamentária e em muitas outras. Poderíamos dizer a mesma coisa dos profissionais da saúde, como o pessoal da enfermagem que trabalha no Hospital de Clínicas, na Maternidade Victor Ferreira do Amaral, e que mesmo desempenhando funções tão essenciais para o bom andamento das atividades de assistência e ensino, são normalmente obrigados a ter dois empregos ou a fazer plantões adicionais para completar os magros rendimentos.A situação dos nossos companheiros contratados pela FUNPAR ou terceirizados é ainda pior: o pessoal da FUNPAR recebe salários de pobreza e os terceirizados, salários de miséria(costumam receber menos do que um salário mínimo após os “descontos”). E são essas pessoas —a maioria mulheres, mães de família— que fazem a universidade funcionar, trabalhando nos serviços mais pesados: limpeza e conservação, restaurantes, lavanderias, manutenção, transportes, segurança…Como chegamos a este ponto?No Brasil, quem trabalha com educação e saúde não é tratado com respeito. E isso inclui, é claro, as professoras e os professores, que também estão com os salários arrochados e com a carreira precarizada. Isso acontece porque a presidente Dilma (PT), seguindo a linha adotada por Lula, não abandonou em nenhum momento a cartilha neoliberal dos governos Collor, Itamar e FHC (PSDB). A prova disso é que mesmo após 11 anos de governos do PT, os serviços públicos vão de mal a pior. Há uma crise grave na maior parte das áreas sociais e um caos completo na saúde, na educação e nos transportes públicos. Essa foi uma das causas da explosão de revolta que varreu o país em junho de 2013. Infelizmente, até agora, o governo não deu ouvidos para o que o povo dizia nas ruas, e o suplício de quem depende dos serviços públicos, principalmente do SUS, continua.Campeão mundial de impostos e taxas de juros… Para quê?O Brasil tem uma das maiores cargas tributárias do mundo. Todos os anos batemos recordes de arrecadação de impostos. Por acaso esse dinheiro retorna para a sociedade na forma de investimentos em infraestrutura, geração de empregos, educação, saúde, previdência social? Infelizmente, não. Então, onde vai parar todo esse dinheiro?A resposta é simples. No Brasil colônia, os exploradores das metrópoles saíam daqui com suas embarcações abarrotadas de pau-brasil, açúcar, tabaco e ouro (usando para isso o trabalho escravo). No Brasil de hoje, continua acontecendo quase a mesma coisa, a diferença é que o modo de explorar a força de trabalho mudou, as metrópoles e os exploradores mudaram, e surgiram métodos muito mais eficazes de roubar aquilo que produzimos: entre eles, a desnacionalização da economia (privatizações) e o perverso mecanismo da “dívida pública”.A Coroa portuguesa exigia a quinta parte da produção de ouro das nossas minas. A exploração atual é muito mais feroz: quase a metade do Orçamento da União é enviada diretamente para o bolso dos banqueiros e dos especuladores do mercado financeiro, na forma de pagamentos dos serviços de rolagem da dívida pública (juros e amortizações). E a parte mais cruel desse sofisticado mecanismo de exploração é que quanto mais se paga, mais se deve.

Retrato da desigualdadeSomente em 2012, pagamos 753 bilhões de reais da dívida pública! Para se ter uma ideia do que isso significa, com esse dinheiro seria possível pagar um salário mínimo atual (724 reais) para 50 milhões de pessoas durante 20 meses; ou construir 18 milhões de casas populares a um custo de 40 mil reais cada; ou 44 mil hospitais de excelência, a um custo de 17 milhões cada um. Outra comparação: o total gasto com o Bolsa Família no mesmo ano (2012), que atinge quase 14 milhões de famílias (a 70 reais por pessoa), foi de pouco mais de 20,2 bilhões, ou seja, trinta e sete vezes menos do que o valor dado pelo governo aos bancos!

A “reprimarização” da economia: a causa do sucateamento do ensino superior público

O governo federal pretende transformar o Brasil no campeão mundial de exportação de produtos agrícolas até 2020, para a alegria do agronegócio. Com isso, vai se agravar o processo de destruição ambiental causado pela expansão das monoculturas de soja e cana-de-açúcar, o que acarreta graves transtornos climáticos e também a destruição da agricultura familiar (elevando brutalmente o preço dos alimentos). Além disso, ao transformar o Brasil no “celeiro do mundo”, esse retorno à economia colonial vai causar a destruição do que restou da indústria nacional, liberando definitivamente o mercado interno para as multinacionais e para a penetração dos importados. Neste cenário, em que nossa função se resume a enviar matérias primas (commodities) para as metrópoles e comprar delas os produtos industrializados, que lugar poderia haver para as universidades públicas, para a produção de conhecimento, ciência e tecnologia?

Que país queremos para as futuras gerações?

Se não houver uma reação enérgica dos trabalhadores e de toda a sociedade contra este retrocesso histórico, se não defendermos as universidades públicas, que mesmo diante de todas as dificuldades ainda realizam a maior parte da pesquisa científica do país, e ainda formam os melhores profissionais, em breve elas estarão extintas. As faculdades privadas, as “fábricas de diploma” e os cursos ligeiros ou à distância dominarão completamente o “mercado de ensino superior”. E então o Brasil perderá definitivamente o pouquinho de autonomia e soberania que adquiriu desde o último pós-guerra até hoje, período em que nossas universidades cresceram paralelamente ao desenvolvimento da mineração, da siderurgia, das telecomunicações, da extração e refino de petróleo, e de outras áreas em que chegamos a ser autônomos, antes que os governos das últimas décadas (tanto do PSDB quanto do PT) entregassem tudo de bandeja para as multinacionais.

Por um Brasil verdadeiramente justo e soberano!

Essa é a guerra para a qual os trabalhadores e toda a população estão convocados: lutar pela nossa soberania e por justiça social. A “elite” de nosso país mostrou ser completamente incapaz de realizar essa tarefa —preferiu ser sócia minoritária do capital estrangeiro e enriquecer à custa da dilapidação do Estado (corrupção). Reverter o atraso histórico, as injustiças seculares, a miséria, a pobreza e a ignorância, é uma tarefa que recai agora integralmente sobre os ombros da classe trabalhadora. Nós, servidores técnico-administrativos da UFPR, HC, UTFPR, IFPR e UNILA, estamos fazendo a nossa parte. Nossa luta por respeito, por salários e condições de trabalho dignas, faz parte da defesa do ensino superior público, gratuito e de qualidade.

Não estamos pedindo nada de mais. Queremos apenas o mesmo tratamento prioritário e emergencial dado pelo governo federal à FIFA, às empreiteiras, aos bancos e às multinacionais:exigimos investimentos pesados e imediatos nos serviços públicos!

Todos aqueles que torcem por um Brasil verdadeiramente justo e soberano precisam se incorporar a essa luta! Seja solidário ao movimento grevista e nos ajude a exigir da presidente Dilma que atenda as demandas dos trabalhadores!

Nossas principais reivindicações:
 

Em defesa das universidades públicas!

Carreira, salários e condições de trabalho dignas!

Piso de três salários mínimos! Data-base e negociação coletiva! Antecipação da parcela de 5% de reajuste programada para 2015!

Fim das privatizações! Revogação das leis que criaram a EBSERH e o FUNPRESP!

Em defesa da aposentadoria especial! Revogação das Orientações Normativas que reduzem o adicional de insalubridade!

Turnos contínuos e jornada de 30h!

Construção e reestruturação das creches nas universidades, sem municipalização!

Em defesa do direito de greve e das demais garantias constitucionais de expressão, manifestação e organização política e sindical! Não ao “AI-5 padrão FIFA”! Abaixo a criminalização dos movimentos sociais!

SINDITEST-PR
Gestão Sindicato é pra Lutar!

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