Nem Estado nem patriarcado

A esquerda quer tomar a rua. Quer fazer da rua um campo de batalha. Mas esquece que para as mulheres a rua já é uma batalha travada faz tempo. Ocupar os espaços públicos, infestados pelos privilégios e pelas falas masculinas é uma luta que se espalha dos cantos mais reacionários aos mais revolucionários do mundo a fora. Machismo não tem ideologia, ele toma conta dos punhos cerrados até das pessoas em luta só para direcionar o soco ao rosto dos grupos oprimidos. Não há nada de efetivo numa esquerda que afirma algo como uma questão de classe quando metade dessa classe está sendo subjugada e marginalizada. Não há nada de revolucionário em passar por cima do racismo, da homofobia, lesbofobia e transfobia por solidariedade de esquerda. Não há nada de libertário em ignorar a luta e empoderamento dos grupos oprimidos na nossa tão visada transformação social.

A destruição da autoridade não se resume à extinção do estado e do capital. Queremos quebrar os muros de toda forma de dominação do ser humano pelo ser humano; visamos extinguir a exploração sim, mas em conjunto com todas as demais formas de opressão. E entendemos que extinguir futuramente a exploração não é o suficiente se numa sociedade pós revolução existisse machismo, homofobia, lesbofobia, transfobia, racismo, capacitismo, e demais formas de opressão. E que hoje ser combativo da exploração, precarização e mercantilização sem levar em conta as opressões sobrepostas a elas é travar uma luta vazia. Nosso desejo é desmoronar o edifício de todas as relações de centro e periferia. Ou seja, a relação que existe quando há dominação, quando um grupo de pessoas utiliza a força social do dominado ou do agente subjugado para realizar seus objetivos, os objetivos do dominador.

Não se usa os erros políticos de uma pessoa para oprimí-la, não importa que erros sejam esses. Sejam em atos, reuniões, palestras, onde quer que seja, essas posturas precisam ser criticadas. Na última assembléia geral que aconteceu no pátio da reitoria da UFPR, por exemplo, houve uma denúncia de machismo que deve ser tomada como muito séria. Principalmente por se tratar de pessoas com as quais militamos junto, pessoas supostamente de esquerda de quem esperamos coerência em relação a essa questão.

A assembleia não pode responder à base do grito, vaiando e com postura agressiva frente às vítimas. Nos deparamos com cortes feitos às falas de mulheres organizadas em atos que compõe, ou expulsões de mulheres da comunidade de palestras por não respeitarem as inscrições e inúmeros outros casos. Existem formas de lidar com erros da esquerda como oportunismo político, corte de falas e implosão de reuniões de uma forma politizada, sem usar a opressão como tática. Quando erros políticos são feitos precisam ser combatidos, mas normalmente eles recebem respostas muito mais impositivas e grossas quando são feitas por meninas ou outras pessoas de demais grupos oprimidos. Entendemos que isso não é a toa, isso tem nome e se chama machismo.
Quando uma companheira de luta falar algo do qual não concordamos, podemos tomar uma postura opressora e lançar mão de estratégias como silenciamento e intimidação. Ou podemos mostrar um mínimo de coerência e esperar ela terminar de falar, fazer inscrição e contra argumentar. Somos solidárias a toda mulher que sofre opressão machista e reconhecemos que a esquerda, não mais que a direita, tem ainda muitos opressores. Como não os queremos no nosso meio, fazemos questão que se denuncie de maneira clara as opressões que ocorrem em nosso meio militante, por solidariedade e para que não sejamos nós as próximas vítimas.

Não aceitamos usar o centro como um instrumento de emancipação; a nós não cabe nem estado, nem patriarcado. A luta contra o centro é nosso modelo revolucionário. E nossos sujeitos transformadores são todos os grupos marginalizados, e os excluídos dentre esses grupos. Que sejam ouvidas as mulheres, os e as negras, os e as lgbt’s e grupos sociais marginalizados. Não basta a classe trabalhadora se revoltar contra a burguesia se só quem conseguem trabalho são os e as brancas. Ou os campos se movimentarem com uma mão na luta e a outra tampando a voz da boca das companheiras. Que o povo na sua totalidade conduza a sociedade à sua própria emancipação. Que o estado – em sua essência um governo de massas de cima para baixo- “com uma minoria intelectual, e por isto mesmo privilegiada, dizendo compreender melhor os verdadeiros interesses do povo, mais do que o próprio povo.” não nos sirva. Que nossa mobilização seja do nível político organizado como minoria ativa, sem hierarquia e nem domínio social, político, de gênero, racial ou qualquer outra forma de opressão e exploração.

NEM ESTADO, NEM PATRIARCADO.
A LUTA CONTRA O CENTRO É NOSSO MO
DELO REVOLUCIONÁRIO.

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