Mês: março 2016

Com 2 meses de atraso do vale-alimentação, as terceirizadas decidem fazer greve e os RU’s da UFPR paralisam até nova negociação com a Reitoria.

Não é de hoje que as condições das trabalhadoras terceirizadas são alarmantes. Desde o ano passado vem ocorrendo o atraso e a falta de pagamentos- seja do vale-alimentação, do vale-transporte e do próprio salário- ferindo os direitos trabalhistas em virtude da ausência do repasse de verba por parte da Reitoria para a empresa terceirizada WWServ. Além disso, já sabemos da atuação do Sindicato (Siemaco), em muitas ocasiões desencorajou a mobilização das trabalhadoras que viam a necessidade de se manifestar diante de tanto desrespeito, ao mesmo tempo que não conseguia negociações com a empresa ou com a reitoria para assegurar os pagamentos. No fim das contas, os de cima seguem querendo que as pessoas com os trabalhos mais precarizados paguem pela crise!

No mês de fevereiro, muitas trabalhadoras terceirizadas da área de limpeza tiveram seus vales-alimentação pagos com atraso de até 20 dias, enquanto outras sequer receberam. O vale-transporte vem sendo pago de forma desigual para algumas trabalhadoras, vindo em parcelas. E se o mesmo acontece com o vale-alimentação, que parece ter sido pago para algumas nos meses anteriores e outras não, essa também é uma forma de desmobilizar a reivindicação justa dessas trabalhadoras. Somado a isso, o aumento exorbitante de R$1,90 para R$6,00 do RU para as terceirizadas no mesmo período veio para inviabilizar de vez qualquer condição de se alimentarem no local. Nas palavras de uma das trabalhadoras “O vale transporte a gente ainda recebe porque querem que a gente venha trabalhar, mas esquecem que também precisamos comer…”.

E nesse mês de março a situação não mudou. As terceirizadas até agora não receberam o vale-alimentação de fevereiro- e o pagamento do mês de março, que deveria ocorrer na primeira semana, ainda não foi efetuado. A empresa, que alega não ter feito os pagamentos por conta dos atrasos no repasse de verbas, prometeu o pagamento do vale alimentação só para a primeira semana de abril e com probabilidade de ser parcelado.
Com essa situação insustentável as terceirizadas na manhã da última terça-feira(22/03), decidiram entrar em greve e exigir o pagamento dos vales atrasados. E com a limpeza interrompida, torna-se ao mesmo tempo inviável o funcionamento dos RU’s até a Reitoria ceder efetuar o repasse de verbas!

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Ilustração: Yago Tav

 

Sabemos que a paralisação afeta diretamente muitas/os estudantes em situação de fragilidade economica que dependem do R.U para alimentação, mas não podemos estar indiferentes frente a esse cenário de precarização que ocorre tão próximo de nós. Dignidade e respeito são para todos os trabalhadores. Soliedariedade e apoio são fundamentais para com essas trabalhadoras, muitas vezes insíveis para o meio universitário, que sofrem com salários baixos, atrasos nos pagamentos, assédios e condições insalubres de trabalho. Nós estudantes não devemos aceitar que uma das categorias que mantém a UFPR tenha seus direitos negados dessa forma!
Apoiamos a Greve das terceirizadas e exigimos que os pagamentos sejam feitos!
Todo apoio a luta das terceirizadas! Nenhum direito a menos!

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[GEA] Grupo de Estudos em Autogestão – 23 de março em Curitiba!

[ATENÇÃO: ADIADO PARA DIA 30. Em virtude de outro evento já organizado anteriormente na mesma data e local adiamos o GEA para a próxima quarta (30/03), em breve divulgaremos a sala. O evento que ocontece no dia 23/03 na reitoria em virtude da visibilidade trans e travesti será um importante espaço de debate, confiram o evento:https://www.facebook.com/events/1767617346793333]

Nesta quarta-feira (30.03) acontece o primeiro encontro de 2016 do Grupo de Estudos em Autogestão na cidade de Curitiba. O espaço é realizado pelo Coletivo Quebrando Muros e tem como proposta debater uma atuação libertária no movimento estudantil e outros movimentos sociais.

Leituras sugeridas:
A autogestão da sociedade prepara-se na autogestão das lutas, de João Bernado. Disponível em: https://quebrandomuros.files.wordpress.com/2010/06/a-autogestc3a3o-da-sociedade-prepara-se-na-autogestc3a3o-das-lutas.pdf

Capitalismo, Anticapitalismo e Organização Popular, do MTD. Parte 2: Organização Popular. Disponível em: https://quebrandomuros.files.wordpress.com/2010/06/cartilha_anticapitalismo-e-organizac3a7c3a3o-popular.pdf

 

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As leituras são recomendadas, mas não são necessárias para participar do espaço.

Evento no facebook: https://www.facebook.com/events/976092589137601/

QUANDO
23/04, quarta-feira às 14h30

ONDE
Campus Reitoria da UFPR
Sala à confirmar

Não há Socialismo sem Feminismo!

08.03

 

Por um feminismo classista e libertário!

 

“À medida que mais e mais mulheres adquiriram prestígio, fama ou dinheiro a partir de textos feministas ou de ganhos com o
movimento feminista por igualdade no mercado de trabalho,
o oportunismo individual prejudicou os apelos à luta coletiva”
Bell Hooks

Dentro da esquerda e dos movimentos de luta pela libertação da classe trabalhadora, existem diversas polêmicas sobre o movimento feminista e a organização de mulheres* dentro dos grupos para tratar das questões de gênero. A luta de libertação das mulheres tem sido tratada, historicamente, como um objetivo secundário dentro dos movimentos sociais, por ser uma questão que não parece claramente ligada ao sistema de exploração capitalista e a luta de classes. O feminismo não é visto, até hoje, como importante ou fundamental para a luta anticapitalista.

A organização de mulheres na luta antissexista sempre foi sensível às diferenças de classes, uma vez que as mulheres que conseguiam voz e atenção para suas necessidades eram as mulheres de classe alta. Suas pautas, que giravam em torno do direito ao trabalho fora de casa e do direito ao voto, ganharam força, enquanto as propostas das mulheres trabalhadoras, que tinham uma visão mais revolucionária, perderam espaço. Essas trabalhadoras já estavam inseridas no mercado de trabalho mais precário desde cedo e não viam nenhuma esperança de mudança real através do voto. Elas foram aos poucos desistindo do movimento feminista, que começou a ter uma cara muito mais liberal e burguesa. Assim, o feminismo foi apropriado pelo próprio capitalismo.

Claro que a pauta reformista do movimento trouxe melhorias para todas as mulheres – as burguesas e as trabalhadoras – e foram conquistas muito importantes. Mas as mulheres das classes mais altas ganharam poder enquanto as mulheres da classe trabalhadora continuaram sofrendo com as diferenças salariais e com a exploração capitalista, ou seja, o interesse de classe se sobressaiu.

Hoje, 70% da classe trabalhadora é composta por mulheres que ganham em média apenas 70% do salário dos homens em mesma função. Vale lembrar também, que a grande maioria dos trabalhos precarizados – aqueles cujas condições básicas de trabalho são degradadas – são compostos pela força de trabalho feminina, como os trabalhos de telemarketing, limpeza, empresas de serviços gerais, etc. Muitas vezes são elas as responsáveis pelo sustento da família e pela educação das crianças, realizando até hoje a dupla – às vezes tripla – jornada de trabalho. Encarando os assédios diários do patrão, dos clientes e dos colegas de trabalho, tanto numa situação de dominação de classe quanto de gênero. Para elas, as conquistas do feminismo liberal pelo acesso ao mercado de trabalho não representaram uma real mudança, porque não garantiram que o trabalho doméstico fosse também dividido igualmente com seus parceiros homens.

Se considerarmos também a questão racial, a desigualdade aumenta. As mulheres negras recebem praticamente metade do que ganham as mulheres brancas. Em comparação aos homens brancos, elas ganham menos de 30%. Isso considerando apenas o mercado de trabalho formal – com carteira assinada e assegurado legalmente. Ou seja, sem considerar praticamente metade dessas mulheres, uma vez que apenas 41% delas trabalham com carteira assinada, enquanto 19% se dedicam ao trabalho doméstico informal; 17% trabalham por conta própria e 10,5% não exercem nenhum tipo de atividade remunerada. Essas porcentagens se referem à renda total dessas pessoas.

Analisando os números, fica claro para nós a relação entre questões de gênero e de classe. Se mais da metade da classe trabalhadora é composta por mulheres, em sua maioria negras, como pode haver luta de classes sem considerar a luta antissexista e antirracista? Isso por que estamos analisando apenas as condições de trabalho, e não outros ambientes que são hostis às mulheres e seus interesses, como é, por exemplo, o próprio espaço político de organização da classe trabalhadora. Como em todo ambiente que participamos, mesmo a luta anticapitalista reproduz as contradições e opressões de gênero, se tornando um espaço essencialmente masculino. Por motivos óbvios: o espaço público nunca foi socialmente adequado às mulheres; a nós sempre foi reservado o privado, o cuidado da casa e da família. Política é coisa de homem – branco. Enquanto as pessoas que não sofrem essas opressões se calarem diante desse tipo de situação, não reconhecerem seus privilégios e não se proporem a construir um espaço que não só permita, mas que dê voz à todas as pessoas oprimidas, isso não vai mudar.

Mesmo dentro de movimentos de esquerda, ainda encontramos também casos de estupro entre companheiro e companheira, agressão física e verbal, violência psicológica e emocional, e várias outras formas de violência cotidiana a que são submetidas as mulheres diariamente desde crianças. Mas isso não significa que a esquerda seja, por essência, um ambiente que não devamos compor. Pelo contrário, é preciso ocuparmos esse espaço e lutar para que companheiros privilegiados mudem suas atitudes e sua postura diante da questão de gênero, assim como fazemos todos os dias no espaço público, porque eles também são nossos.

Pautar uma luta socialista libertária é pautar uma luta antissexista e antirracista. E é com organização e união que vamos garantir que a luta libertária abranja todas as lutas de resistência. Também temos o direito e devemos lutar lado a lado, abaixo e à esquerda, contra o capitalismo, pois a luta antissexista e antirracista por si só não irá abalar as estruturas do Capital. Não há revolução sexual sem a revolução social!

 

*O termo “mulheres”, em discussões feministas, sofre interpretações diferentes. Nós utilizamos essa palavra no texto para abarcar mulheres cis e trans

 

Fonte: http://www.ufgd.edu.br/reitoria/neab/downloads/situacao-das-mulheres-negras-no-mercado-de-trabalho-uma-analise-dos-indicadores-sociais-giselle-pinto