Não há Socialismo sem Feminismo!

08.03

 

Por um feminismo classista e libertário!

 

“À medida que mais e mais mulheres adquiriram prestígio, fama ou dinheiro a partir de textos feministas ou de ganhos com o
movimento feminista por igualdade no mercado de trabalho,
o oportunismo individual prejudicou os apelos à luta coletiva”
Bell Hooks

Dentro da esquerda e dos movimentos de luta pela libertação da classe trabalhadora, existem diversas polêmicas sobre o movimento feminista e a organização de mulheres* dentro dos grupos para tratar das questões de gênero. A luta de libertação das mulheres tem sido tratada, historicamente, como um objetivo secundário dentro dos movimentos sociais, por ser uma questão que não parece claramente ligada ao sistema de exploração capitalista e a luta de classes. O feminismo não é visto, até hoje, como importante ou fundamental para a luta anticapitalista.

A organização de mulheres na luta antissexista sempre foi sensível às diferenças de classes, uma vez que as mulheres que conseguiam voz e atenção para suas necessidades eram as mulheres de classe alta. Suas pautas, que giravam em torno do direito ao trabalho fora de casa e do direito ao voto, ganharam força, enquanto as propostas das mulheres trabalhadoras, que tinham uma visão mais revolucionária, perderam espaço. Essas trabalhadoras já estavam inseridas no mercado de trabalho mais precário desde cedo e não viam nenhuma esperança de mudança real através do voto. Elas foram aos poucos desistindo do movimento feminista, que começou a ter uma cara muito mais liberal e burguesa. Assim, o feminismo foi apropriado pelo próprio capitalismo.

Claro que a pauta reformista do movimento trouxe melhorias para todas as mulheres – as burguesas e as trabalhadoras – e foram conquistas muito importantes. Mas as mulheres das classes mais altas ganharam poder enquanto as mulheres da classe trabalhadora continuaram sofrendo com as diferenças salariais e com a exploração capitalista, ou seja, o interesse de classe se sobressaiu.

Hoje, 70% da classe trabalhadora é composta por mulheres que ganham em média apenas 70% do salário dos homens em mesma função. Vale lembrar também, que a grande maioria dos trabalhos precarizados – aqueles cujas condições básicas de trabalho são degradadas – são compostos pela força de trabalho feminina, como os trabalhos de telemarketing, limpeza, empresas de serviços gerais, etc. Muitas vezes são elas as responsáveis pelo sustento da família e pela educação das crianças, realizando até hoje a dupla – às vezes tripla – jornada de trabalho. Encarando os assédios diários do patrão, dos clientes e dos colegas de trabalho, tanto numa situação de dominação de classe quanto de gênero. Para elas, as conquistas do feminismo liberal pelo acesso ao mercado de trabalho não representaram uma real mudança, porque não garantiram que o trabalho doméstico fosse também dividido igualmente com seus parceiros homens.

Se considerarmos também a questão racial, a desigualdade aumenta. As mulheres negras recebem praticamente metade do que ganham as mulheres brancas. Em comparação aos homens brancos, elas ganham menos de 30%. Isso considerando apenas o mercado de trabalho formal – com carteira assinada e assegurado legalmente. Ou seja, sem considerar praticamente metade dessas mulheres, uma vez que apenas 41% delas trabalham com carteira assinada, enquanto 19% se dedicam ao trabalho doméstico informal; 17% trabalham por conta própria e 10,5% não exercem nenhum tipo de atividade remunerada. Essas porcentagens se referem à renda total dessas pessoas.

Analisando os números, fica claro para nós a relação entre questões de gênero e de classe. Se mais da metade da classe trabalhadora é composta por mulheres, em sua maioria negras, como pode haver luta de classes sem considerar a luta antissexista e antirracista? Isso por que estamos analisando apenas as condições de trabalho, e não outros ambientes que são hostis às mulheres e seus interesses, como é, por exemplo, o próprio espaço político de organização da classe trabalhadora. Como em todo ambiente que participamos, mesmo a luta anticapitalista reproduz as contradições e opressões de gênero, se tornando um espaço essencialmente masculino. Por motivos óbvios: o espaço público nunca foi socialmente adequado às mulheres; a nós sempre foi reservado o privado, o cuidado da casa e da família. Política é coisa de homem – branco. Enquanto as pessoas que não sofrem essas opressões se calarem diante desse tipo de situação, não reconhecerem seus privilégios e não se proporem a construir um espaço que não só permita, mas que dê voz à todas as pessoas oprimidas, isso não vai mudar.

Mesmo dentro de movimentos de esquerda, ainda encontramos também casos de estupro entre companheiro e companheira, agressão física e verbal, violência psicológica e emocional, e várias outras formas de violência cotidiana a que são submetidas as mulheres diariamente desde crianças. Mas isso não significa que a esquerda seja, por essência, um ambiente que não devamos compor. Pelo contrário, é preciso ocuparmos esse espaço e lutar para que companheiros privilegiados mudem suas atitudes e sua postura diante da questão de gênero, assim como fazemos todos os dias no espaço público, porque eles também são nossos.

Pautar uma luta socialista libertária é pautar uma luta antissexista e antirracista. E é com organização e união que vamos garantir que a luta libertária abranja todas as lutas de resistência. Também temos o direito e devemos lutar lado a lado, abaixo e à esquerda, contra o capitalismo, pois a luta antissexista e antirracista por si só não irá abalar as estruturas do Capital. Não há revolução sexual sem a revolução social!

 

*O termo “mulheres”, em discussões feministas, sofre interpretações diferentes. Nós utilizamos essa palavra no texto para abarcar mulheres cis e trans

 

Fonte: http://www.ufgd.edu.br/reitoria/neab/downloads/situacao-das-mulheres-negras-no-mercado-de-trabalho-uma-analise-dos-indicadores-sociais-giselle-pinto

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