Mês: abril 2017

O Bonde que só negocia com a Reitoria passou: 2 anos sem o Prédio do DCE

No dia 18 de abril de 2015, em pleno final de semana de Páscoa, a Polícia Federal em Curitiba realizou uma operação de reintegração de posse do Prédio do DCE – o prédio dos estudantes da UFPR – a mando da Reitoria da instituição, à época comandada pelo Reitor Zaki Akel. A operação contou com dezenas de policiais fortemente armados que isolaram as ruas ao redor do prédio que divide a quadra com o Restaurante Universitário Central e a Casa da Estudante Universitária de Curitiba e fica em frente ao Campus Reitoria da Universidade Federal do Paraná. Hoje completam-se, portanto, dois anos que o principal espaço físico dos estudantes permanece fechado.

Os meses que antecederam o fechamento do prédio foram marcados por intenso debate sobre a utilização deste espaço físico de tamanha importância para a organização do Movimento Estudantil, seja para realizar reuniões, discussões e grupos de estudos, sediar encontros nacionais e regionais de cursos, armazenar documentos históricos ou mesmo para auxiliar no autofinanciamento de Centros e Diretórios Acadêmicos e demais entidades e coletivos por meio de festas, sarais e apresentações de bandas. Esse debate foi impulsionado porque o prédio passou a receber as atividades dos coletivos El Quinto, Rádio Gralha e Antifa 16, que não estavam diretamente vinculados à Universidade e que viram nesse espaço um grande potencial de articulação. Esses coletivos passaram a promover diariamente atividades como oficinas artísticas (de fotografia, de teatro, de circo, de zine, etc.), oficinas de autodefesa (mista e exclusivamente para mulheres), cine-debates e encontros formativos, além do funcionamento de uma rádio livre que contava com variados programas. Dessa forma, o prédio passou a ter vida cultural e política diariamente e não apenas quando havia uma atividade programada e abriu as portas para a comunidade que não estava ligada à Universidade (sem fechar as portas para a comunidade acadêmica e para as forças que compõem o movimento estudantil), o que passou a incomodar não apenas a Reitoria, mas também alguns grupos políticos.

Assim que a gestão “Quem tá passando é o bonde”, composta majoritariamente por militantes de organizações próximas ao PT, assumiu o Diretório Central dos Estudantes, eles passaram a se reunir com esses coletivos para conversar sobre uma reforma do prédio que aconteceria nos próximos meses, uma vez que o complexo do qual ele faz parte não atende a algumas normas do Corpo de Bombeiros (este complexo inclui os prédios Dom Pedro I e II, o RU Central e a CEUC, ou seja, não apenas o Prédio do DCE descumpre às normas). De início, os coletivos acreditavam que não poderiam se opor a isso por não fazer parte da comunidade acadêmica, mas depois ficaram sabendo que essa não foi uma decisão informada e discutida com todos os estudantes, mas apenas entre a até então gestão do DCE e a Reitoria. Isso gerou revolta em todo o movimento estudantil que passou a se mobilizar para discutir a reforma e buscar garantias para que ela acontecesse rapidamente e que o prédio voltasse às mãos dos estudantes, garantia esta que não estava prevista no projeto de reforma apresentado pela Reitoria – que inclusive já havia retirado dos estudantes de Medicina o prédio do DANC (Diretório Acadêmico Nilo Cairo) que permanece fechado desde 2013 em função de um suposto vazamento de água sem previsão de início de reforma ou devolução aos estudantes.

Em meio às discussões da comunidade estudantil sobre o uso do prédio e a rejeição à proposta de reforma, a ocupação seguiu a contragosto da gestão do DCE e da Reitoria, que passou a pressionar ainda mais pela desocupação do prédio. Os ocupantes recebiam visitas inesperadas de membros da Reitoria que ameaçavam que, se eles não saíssem dali nas próximas horas, a polícia seria acionada, água e luz foram cortadas, além da fatídica tentativa de colocar a comunidade acadêmica contra a ocupação fechando o RU Central por uma suposta contaminação da água provocada pelos “invasores” que se comprovou falsa (convenientemente, o laudo só foi divulgado após a desocupação). Três estudantes da UFPR, participantes de cada um dos coletivos, foram criminalizados e acusados judicialmente pela Reitoria em função da ocupação.

Desde que foi desocupado e trancado, a única “revitalização” feita no prédio foi a pintura da fachada e não há nenhuma previsão de início da reforma ou informações precisas sobre quanto tempo ela levaria quando iniciada, o que exatamente será reformado e tampouco sobre seu orçamento. Muitos estudantes que entraram na Universidade em 2016 e 2017 nem sabem que esse espaço existe e a importância de retomá-lo. A gestão do DCE eleita posteriormente, “Nós não vamos pagar nada”, composta por organizações e pessoas que participaram ativamente das discussões sobre o prédio no ano anterior, tentou retomar essa questão promovendo espaços de discussão e deliberação sobre a reforma, inclusive criando uma comissão para acompanhá-la. Isso porque, em uma Assembleia Geral dos Estudantes realizada no dia 18 de agosto de 2016 que não contou com mais de 50 pessoas, sendo a maioria participante de organizações que compunham o DCE e que no ano anterior haviam alertado para os perigos de acreditar nas palavras da Reitoria (ainda mais em um contexto de cortes de verbas para as Universidades Públicas), foi deliberado aceitar a reforma sob condições como utilizar o espaço durante a mesma – o que já foi descartado pela Reitoria. Atualmente não temos previsão ou garantia de retorno do prédio para as mãos dos estudantes e sabemos que com os cortes do Governo Federal, que já afetam no funcionamento da UFPR, reformar o espaço físico dos estudantes a fim de devolvê-lo está longe de ser uma prioridade para a Reitoria.

Entendendo a importância desse espaço para atividades acadêmicas, culturais e políticas – sobretudo em um momento de ataques como o que vivemos – reforçamos a necessidade de retomar o Prédio do DCE a fim de manter a autonomia dos estudantes e de viabilizar melhores condições de organização e mobilização estudantil por maior acesso, permanência e qualidade de ensino dentro da Universidade, além de resistência contra ataques dos de cima. Para isso, precisamos discutir amplamente e reviver na base a urgência de fazer com que o prédio volte às mãos dos estudantes, ao invés de esperar por uma reforma que, na prática, nada mais é do que nos conformar com que ele permaneça fechado pelos próximos anos e todo esse debate caia em esquecimento.