Autor: Coletivo Quebrando Muros

Agrupamento de tendência libertária.

Fora com as Reformas! | Breve análise da conjuntura nacional sob uma perspectiva libertária

A dinâmica da política nacional é configurada pelo financiamento de corporações e suas empresas a grande parte ou todos os partidos políticos da ordem e seus candidatos favoritos nas disputas eleitorais. Seja por meio do financiamento “legal” de campanhas, ou da corrupção, o objetivo é que, quando eleitos, estes políticos tomem decisões e atuem para promover os interesses empresariais. Os políticos colocam as demandas das corporações à frente das demandas da população; as propostas que deveriam atender às necessidades populares são eliminadas ou diluídas por interesses corporativos; as empresas por meio de projetos de lei minimizam o custo de sua produção e dos seus serviços para maximizar o lucro: pouca remuneração por longas horas de trabalho, poluição e exploração agressiva do meio ambiente, afrouxamento das condições de segurança no trabalho, não cumprimento de direitos trabalhistas, entre inúmeras outras medidas que mostram como estes grupos se utilizam do Estado para benefício próprio.

A população, sobretudo os mais pobres, sofre ainda mais com essas medidas que causam insatisfação que, em diversos momentos, se acentuam em função de denúncias de corrupção. Nesse cenário, a mídia tem o papel fundamental de articulação e manipulação: fazer com que a população aceite melhor essas medidas impopulares e denunciar, seletivamente, os escândalos envolvendo políticos que serão descartados, tirando o foco do problema político como um todo e de quem são os verdadeiros corruptores: em grande medida os empresários e banqueiros.

Os políticos que não atendem suficientemente às expectativas dos grandes empresários são depostos, além disso existem as disputas internas entre as elites econômicas e políticas por seus projetos – caracterizados, em maior ou menor medida, por ataques à classe trabalhadora.

Recentemente, além dos inúmeros casos de corrupção expostos pela Operação Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou no dia 18 de maio áudios entregues pelo empresário Joesley Batista, da empresa JBS, em seu acordo de delação premiada.  O diálogo entre Temer e Joesley foi gravado na residência do presidente, sem que Temer soubesse que estava sendo gravado. Os áudios contavam com comentários do empresário a respeito da propina que o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha recebeu para que se manter calado enquanto está preso comentários estes seguidos de palavras de aprovação do presidente, concordando e endossando esse pagamento. Divulgados em primeira mão pela Rede Globo, emissora de enorme influência, os áudios de Temer circularam rapidamente por todo o Brasil, protagonizando um escândalo político. Temer já vinha com uma aprovação baixíssima 4% em abril de 2017 e, não negando o seu envolvimento com pagamento de propina, o presidente se colocou no centro de um alvoroço que aprofundou a crise política instaurada no país.

Por sua vez, as centrais sindicais e inúmeros movimentos sociais e organizações políticas, antes mesmo do escândalo dos áudios, já vinham convocando paralisações nacionais pautando o “Fora Temer”, decididas em suas reuniões de cúpula fechada e deslocadas de suas bases. O vazamento do áudio só acalorou e serviu como a peça final para legitimar os chamados para a suposta Greve Geral e ao “Fora Temer”, “Diretas Já”, “Eleições Gerais”, entre outras bandeiras aliadas à manutenção da farsa democrática.

Diante dos sucessivos ataques à classe trabalhadora e escândalos de corrupção, a principal resposta dada por algumas centrais sindicais é a via eleitoral, por meio de eleições diretas ou gerais. Contudo, entendemos que esse instrumento de representatividade não passa de uma “dança das cadeiras” da elite econômica, que coloca no poder quem está mais apto a pôr em marcha seus projetos políticos de avanço da privatização, sucateamento dos serviços públicos e ataques aos direitos trabalhistas. Não acreditamos que essa seja a resposta, muito menos a solução dos nossos problemas, uma vez que historicamente vimos que nenhum governo esteve verdadeiramente ao lado dos trabalhadores e que o apoio a governos e a construção de candidaturas não são suficientes para garantir a manutenção e a conquista de nossos direitos.

Em nossa compreensão, apenas a luta em conjunto com a base, dentro dos nossos locais de trabalho, estudo e moradia, pode ser o caminho para impedir que projetos de leis que nos afetam de maneira negativa sejam aprovados. Isso porque, não importa quem é o presidente ou a figura política no comando, temos um Congresso Nacional e um Senado que se colocam a favor dessas medidas impopulares e não será por meio do voto que serão colocadas pessoas com as condições necessárias para barrar as reformas políticas e econômicas que tanto nos prejudicam. Dessa forma, podemos ver que nenhuma das respostas apresentadas pela democracia representativa são suficientes para sairmos da crise econômica: processos de impeachment e eleições fazem parte do projeto político que as elites querem pôr em prática.

Não acreditamos que meramente os chamados a Marchas Nacionais em Brasília irão solucionar os problemas existentes, já que estaremos indo sem bases sociais para um lugar que traz a ideia de centralidade de poder. O poder popular não está em Brasília, o poder está onde as e os trabalhadores e estudantes, organizados ou não, se concentram! A articulação em nível nacional é importante e não deve ser negada, mas, se essa articulação é feita em conversas de gabinetes e sem participação popular, ela não nos interessa. Devemos sim pressionar para a derrubada e dissolução do poder econômico e político, mas munidos da participação popular e dos levantes das e dos estudantes e trabalhadores organizados em suas localidades. Só assim daremos resposta e solução para as crises que enfrentamos dentro dessa estrutura política falha e que não atende aos interesses da população em geral.

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Trancaço e barricada realizada por trabalhadores metalúrgicos do Paraná

Priorizar mobilizações em Brasília, e não nas bases, e pautar soluções como “diretas já”, implicam no abandono dos meios de luta construídos pela classe trabalhadora ao longo de anos (greves, ocupações, trancaços, etc.) e a reprodução de um projeto tido como “democrático e popular”, amplamente defendido pelo Partido dos Trabalhadores e que quase não favoreceu a população em mais de uma década à frente do poder se compararmos com as regalias oferecidas aos mais diversos setores empresariais.

Outra questão importante a ser tratada são os recentes chamados à “Greves Gerais”, aos quais discordamos de seu conteúdo: acreditamos e defendemos a construção de uma Greve Geral como forma de barrar essas medidas, mas entendemos que ela deva ser construída nas localidades, nos sindicatos e na organização das e dos trabalhadores de maneira que compreendam que sua força de trabalho é o que mantém o lucro do patrão e consequentemente a base da política nacional. É importante compreender que uma Greve Geral não deve ser um decreto das centrais sindicais marcando para determinados datas paralisações de um ou dois dias. Se possuem hora de início e término, devemos entendê-las como paralisações que não carregam a mesma força de uma Greve Geral. E, no momento, seria alimentar ilusões dizer que as paralisações pontuais bastarão para barrar tantos ataques.

Devemos pautar a construção de uma Greve Geral nos moldes revolucionários, de modo que o trabalhador seja emancipado e esteja totalmente ciente do seu poder político e da necessidade de estar organizado em seu local, construindo o seu movimento sindicalista e rompendo com os velhos sindicatos e centrais pelegas e burocráticas que em sua diretoria o patrão ou o partido é quem comanda. Construção esta que nós, enquanto trabalhadoras e trabalhadores em formação, devemos endossar dentro do Movimento Estudantil e suas instâncias de base e convocar a todas e todos a participar ativamente dessa luta contra os ataques que também os afetam diretamente. 

É necessário que nos organizemos e apoiemos os trabalhadores, é necessário que a produção e os serviços sejam interrompidos, é necessário amplificar a radicalização nas ruas por meio dos bloqueios com barricadas, é necessário nos levantar em nossas localidades contra as medidas do Governo Federal e construir uma outra forma de poder de maneira horizontal, promovendo a ação direta e se desvinculando dos projetos eleitoreiros que determinadas centrais sindicais e movimentos promovem nas marchas e paralisações.

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OU SE VOTA COM AS/OS DE CIMA OU SE LUTA COM AS/OS DE BAIXO!

Apoio crítico à Chapa 1 – Quero Me Livrar Dessa Situação Precária nas eleições para o DCE da UFPR em 2017

O Coletivo Quebrando Muros, agrupamento de tendência libertária que atua no movimento estudantil universitário do Paraná, vem por meio desta nota manifestar seu posicionamento diante de mais uma eleição para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Universidade Federal do Paraná, que acontecerá nos próximos dias 10 e 11 de maio, respectivamente quarta e quinta-feira da semana que vem. É válido informar que as eleições de 2017, ao contrário das anteriores, se darão de forma separada entre a direção executiva e os conselhos superiores, separação que pode prejudicar a unidade do movimento estudantil em sua ferramenta de articulação e de representação nos conselhos universitários que discutem e deliberam sobre as políticas internas da UFPR. Estão concorrendo um total de seis chapas divididas entre as duas instâncias.

A intenção dessa nota é expressar publicamente nosso apoio crítico à Chapa 1 – Quero Me Livrar Dessa Situação Precária e trazer à tona as motivações que nos levaram, mais uma vez, a não participar do processo eleitoral para o DCE. Portanto, nos situamos enquanto apoiadores, também por entender que a Chapa 1 é a única que compreende a problemática na falta de unidade do movimento, concorrendo de forma conjunta para a direção executiva e os conselhos superiores.

Em um cenário de ataques constantes aos nossos direitos e ao setor público, sobretudo à educação tanto em nível básico quanto superior, é preciso construir um movimento estudantil forte, combativo, pela base e que esteja ombro a ombro com as e os trabalhadores tanto na luta contra os ataques, os cortes e as reformas como dentro da própria Universidade, se colocando em posição de diálogo  constante com as diferentes categorias tais como professores, técnicos administrativos e terceirizadas/os. Isso só será possível se estivermos presentes no cotidiano das e dos estudantes, vinculados às suas realidades e construindo o movimento de baixo para cima. Acreditamos que a melhor forma de fazer isso hoje é nas instâncias mais próximas da base, tais como Centros e Diretórios Acadêmicos e coletivos de cursos e setoriais, desde que sejam pautados pela horizontalidade e autonomia e que suas gestões não encarem essas instâncias como uma extensão do programa político de suas organizações ou como mero prestador de serviços para os estudantes.

Não negamos, contudo, a importância de instrumentos mais amplos como o Diretório Central dos Estudantes em potencializar a luta pela defesa de uma Universidade pública, de qualidade e que se adeque à realidade socioeconômica dos alunos; a depender, inegavelmente, dos grupos políticos que estão à sua frente. Na UFPR já fomos assombrados com exemplos de gestões que atravancavam as lutas, se posicionaram de forma contrária a ocupações, negociaram com a Reitoria questões que afetam a todas e todos sem informar à comunidade estudantil, boicotaram ou implodiram espaços gerais e legítimos de deliberação das e dos estudantes, entre outras situações que ilustram como atuam gestões ligadas a governos, partidos de direita ou atreladas à burocracia interna da Universidade.

No entanto, não podemos ignorar o quanto esse instrumento tem se apresentado de forma descolada das bases, demonstrando falta de compreensão com relação à realidade das e dos alunos. Isso acentua o afastamento destes das discussões e processos políticos e, consequentemente, na incapacidade do movimento em apresentar soluções práticas para os problemas que temos enfrentado dentro da Universidade, relacionados, sobretudo, à permanência das e dos estudantes trabalhadores e mais precarizados.

As disputas políticas internas ao DCE, que muitas vezes se refletem nos espaços gerais, têm sido um gasto de energia na construção de uma ferramenta que está distante da base estudantil, ao passo que a construção e o fortalecimento de instâncias como CAs, DAs e coletivos de cursos e setoriais são secundarizados por organizações que concorrem ao DCE. Essa situação, de acordo com o que defendemos e pautamos, é contrária à construção de um movimento estudantil desde a base, em que o DCE deveria ser a representação aglutinadora das necessidades de mobilização dos cursos e não uma ferramenta descolada da base e pautada por uma política de cima pra baixo, como bem sabemos que pode ocorrer.

Finalmente, entendemos que o momento exige a unificação das lutas e que o apoio à uma chapa composta por pessoas e organizações que se alinhem, em diferentes medidas, a uma prática combativa e horizontal e que se preocupem com a mobilização dentro e fora da Universidade é essencial. É evidente para nós que outros grupos políticos que se colocam na disputa não irão atender às demandas estudantis ou articular de modo coerente as lutas que serão necessárias nesta conjuntura de crise econômica e precarização da Universidade e da Educação Pública. Sem perder de vista os elementos colocados, reiteramos nosso apoio à Chapa 1 – Quero Me Livrar Dessa Situação Precária – nas eleições para o DCE da UFPR em 2017!

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O Bonde que só negocia com a Reitoria passou: 2 anos sem o Prédio do DCE

No dia 18 de abril de 2015, em pleno final de semana de Páscoa, a Polícia Federal em Curitiba realizou uma operação de reintegração de posse do Prédio do DCE – o prédio dos estudantes da UFPR – a mando da Reitoria da instituição, à época comandada pelo Reitor Zaki Akel. A operação contou com dezenas de policiais fortemente armados que isolaram as ruas ao redor do prédio que divide a quadra com o Restaurante Universitário Central e a Casa da Estudante Universitária de Curitiba e fica em frente ao Campus Reitoria da Universidade Federal do Paraná. Hoje completam-se, portanto, dois anos que o principal espaço físico dos estudantes permanece fechado.

Os meses que antecederam o fechamento do prédio foram marcados por intenso debate sobre a utilização deste espaço físico de tamanha importância para a organização do Movimento Estudantil, seja para realizar reuniões, discussões e grupos de estudos, sediar encontros nacionais e regionais de cursos, armazenar documentos históricos ou mesmo para auxiliar no autofinanciamento de Centros e Diretórios Acadêmicos e demais entidades e coletivos por meio de festas, sarais e apresentações de bandas. Esse debate foi impulsionado porque o prédio passou a receber as atividades dos coletivos El Quinto, Rádio Gralha e Antifa 16, que não estavam diretamente vinculados à Universidade e que viram nesse espaço um grande potencial de articulação. Esses coletivos passaram a promover diariamente atividades como oficinas artísticas (de fotografia, de teatro, de circo, de zine, etc.), oficinas de autodefesa (mista e exclusivamente para mulheres), cine-debates e encontros formativos, além do funcionamento de uma rádio livre que contava com variados programas. Dessa forma, o prédio passou a ter vida cultural e política diariamente e não apenas quando havia uma atividade programada e abriu as portas para a comunidade que não estava ligada à Universidade (sem fechar as portas para a comunidade acadêmica e para as forças que compõem o movimento estudantil), o que passou a incomodar não apenas a Reitoria, mas também alguns grupos políticos.

Assim que a gestão “Quem tá passando é o bonde”, composta majoritariamente por militantes de organizações próximas ao PT, assumiu o Diretório Central dos Estudantes, eles passaram a se reunir com esses coletivos para conversar sobre uma reforma do prédio que aconteceria nos próximos meses, uma vez que o complexo do qual ele faz parte não atende a algumas normas do Corpo de Bombeiros (este complexo inclui os prédios Dom Pedro I e II, o RU Central e a CEUC, ou seja, não apenas o Prédio do DCE descumpre às normas). De início, os coletivos acreditavam que não poderiam se opor a isso por não fazer parte da comunidade acadêmica, mas depois ficaram sabendo que essa não foi uma decisão informada e discutida com todos os estudantes, mas apenas entre a até então gestão do DCE e a Reitoria. Isso gerou revolta em todo o movimento estudantil que passou a se mobilizar para discutir a reforma e buscar garantias para que ela acontecesse rapidamente e que o prédio voltasse às mãos dos estudantes, garantia esta que não estava prevista no projeto de reforma apresentado pela Reitoria – que inclusive já havia retirado dos estudantes de Medicina o prédio do DANC (Diretório Acadêmico Nilo Cairo) que permanece fechado desde 2013 em função de um suposto vazamento de água sem previsão de início de reforma ou devolução aos estudantes.

Em meio às discussões da comunidade estudantil sobre o uso do prédio e a rejeição à proposta de reforma, a ocupação seguiu a contragosto da gestão do DCE e da Reitoria, que passou a pressionar ainda mais pela desocupação do prédio. Os ocupantes recebiam visitas inesperadas de membros da Reitoria que ameaçavam que, se eles não saíssem dali nas próximas horas, a polícia seria acionada, água e luz foram cortadas, além da fatídica tentativa de colocar a comunidade acadêmica contra a ocupação fechando o RU Central por uma suposta contaminação da água provocada pelos “invasores” que se comprovou falsa (convenientemente, o laudo só foi divulgado após a desocupação). Três estudantes da UFPR, participantes de cada um dos coletivos, foram criminalizados e acusados judicialmente pela Reitoria em função da ocupação.

Desde que foi desocupado e trancado, a única “revitalização” feita no prédio foi a pintura da fachada e não há nenhuma previsão de início da reforma ou informações precisas sobre quanto tempo ela levaria quando iniciada, o que exatamente será reformado e tampouco sobre seu orçamento. Muitos estudantes que entraram na Universidade em 2016 e 2017 nem sabem que esse espaço existe e a importância de retomá-lo. A gestão do DCE eleita posteriormente, “Nós não vamos pagar nada”, composta por organizações e pessoas que participaram ativamente das discussões sobre o prédio no ano anterior, tentou retomar essa questão promovendo espaços de discussão e deliberação sobre a reforma, inclusive criando uma comissão para acompanhá-la. Isso porque, em uma Assembleia Geral dos Estudantes realizada no dia 18 de agosto de 2016 que não contou com mais de 50 pessoas, sendo a maioria participante de organizações que compunham o DCE e que no ano anterior haviam alertado para os perigos de acreditar nas palavras da Reitoria (ainda mais em um contexto de cortes de verbas para as Universidades Públicas), foi deliberado aceitar a reforma sob condições como utilizar o espaço durante a mesma – o que já foi descartado pela Reitoria. Atualmente não temos previsão ou garantia de retorno do prédio para as mãos dos estudantes e sabemos que com os cortes do Governo Federal, que já afetam no funcionamento da UFPR, reformar o espaço físico dos estudantes a fim de devolvê-lo está longe de ser uma prioridade para a Reitoria.

Entendendo a importância desse espaço para atividades acadêmicas, culturais e políticas – sobretudo em um momento de ataques como o que vivemos – reforçamos a necessidade de retomar o Prédio do DCE a fim de manter a autonomia dos estudantes e de viabilizar melhores condições de organização e mobilização estudantil por maior acesso, permanência e qualidade de ensino dentro da Universidade, além de resistência contra ataques dos de cima. Para isso, precisamos discutir amplamente e reviver na base a urgência de fazer com que o prédio volte às mãos dos estudantes, ao invés de esperar por uma reforma que, na prática, nada mais é do que nos conformar com que ele permaneça fechado pelos próximos anos e todo esse debate caia em esquecimento.

Oito de Março: a luta por um feminismo abaixo e à esquerda!

Em memória ao dia 8 de Março, marco histórico de lutas pela emancipação das mulheres trabalhadoras, negras, indígenas e desempregadas, retomamos brevemente a trajetória de duas militantes que demonstraram a força do espírito revolucionário das mulheres oprimidas quando organizadas:  Angela Davis e Elvira Boni de Lacerda.

Num momento onde a repressão se intensificava contra o avanço dos movimentos sociais, uma palavra para definir Davis é a resistência. Nascida em 1944, Angela conseguiu uma bolsa de estudos na Greenwich Village, em Nova York, afastando-a de seu estado, Alabama, um dos estados mais racistas do país. É nessa escola que desde menina ela teve contato com a militância organizada.

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Angela Yvonne Davis, nascida em 1944 na cidade de Birmingham – Alabama.

Na década de 70, já militante do grupo Panteras Negras e do Partido Comunista, Davis milita ativamente para que a população apoie a luta contra a prisão de 3 militantes do Panteras Negras, que sofriam com a perseguição política. A partir disso, surge uma justificativa da polícia para prendê-la, sob a acusação de fornecer armas na realização de um sequestro e morte de um juiz. Ela então foge e fica por cerca de 2 meses foragida e sendo procurada pela polícia e pela mídia, sendo colocada no topo de uma lista com “os foragidos mais perigosos”. Assim como Assata Shakur, outra mulher negra revolucionária duramente perseguida pelo Estado, que hoje vive em asilo político em Cuba e ainda consta na lista de procurados pelo FBI – sendo citada recentemente por Donald Trump (presidente dos EUA), que deseja extraditá-la como uma criminosa.  O exemplo de mulheres revolucionárias pretas que se colocaram para combater a opressão do Estado e do capital demonstra como  a luta organizada ameaça a manutenção do sistema de exploração. Angela Davis trouxe contribuições importantes também em âmbito acadêmico para analisar nossa sociedade que fundamenta sua base combinando a exploração econômica (a divisão social em classes: trabalhadores e capitalistas), a dominação masculina (o patriarcado, a divisão sexual do trabalho) e o supremacismo branco (o racismo, o genocídio de negros, indígenas, etc. em conjunto com o colonialismo europeu).

Na América Latina também não nos faltam exemplos de guerreiras presentes na luta e organização das de baixo!

Elvira Boni de Lacerda (1899-1990), filha de imigrantes italianos, nasceu no interior de São Paulo, em Espírito Santo do Pinhal e, ainda menina, aos oito anos, mudou-se com sua família para o Rio de Janeiro, no bairro Cordovil. Por ter que cuidar de um de seus irmãos, que adoeceu, Elvira não chegou a completar o curso primário. Já aos doze anos, em 1911, começou a trabalhar como aprendiz de costureira na Rua Uruguaiana, sem receber inicialmente qualquer forma de pagamento. Mais tarde, ela passou a ganhar seu primeiro salário, no valor de 10 mil réis. A jornada diária de trabalho nessa época variava entre 11 a 14 horas seguidas, sendo que quando o serviço apertava, prolongava-se até 20 e 22 horas. Nessa época Elvira acompanhava seus irmãos mais velhos com frequência às reuniões da Liga Anticlerical do Rio de Janeiro, onde muitas ideias anarquistas se difundiam.

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Elvira Boni de Lacerda, nascida em 1899 na cidade de Espírito Santo do Pinhal, no interior de São Paulo.

Elvira, contudo, já conhecia as ideias socialistas antes de se aproximar da Liga Anticlerical e iniciar sua vida sindical e política. Dentro de casa, com seu pai, um operário metalúrgico que tinha influência de amigos socialistas e tendências libertárias e que veio a frequentar o “Círculo Socialista Dante Alighieri”, ela teve, desde o início, contato com o socialismo. A partir de 1912 ela passou a escrever periodicamente para o jornal O Operário e em seus escritos era possível observar uma postura anticlerical combativa aos costumes e moral da época.

Com o passar do tempo, ao adquirir experiência na costura, Elvira torna-se, então, costureira profissional e começa a alargar seus horizontes revolucionários lendo os jornais operários e anarquistas. Depois de passar por algumas oficinas de costura, ela teve de optar entre montar seu próprio negócio ou fazer o trabalho sindical, mas suas ideias a levaram ao trabalho sindical. Em Maio de 1919, junto com 50 companheiras de profissão – dentre elas Elisa Gonçalves de Oliveira, Aida Morais, Isabel Peleteiro, Noêmia Lopes e Carmen Ribeiro -, fundou a União das Costureiras, Chapeleiras e Classes Anexas da qual foi tesoureira até 1922.  A organização passou a funcionar na sede da União dos Alfaiates do Rio de Janeiro, na Rua Senhor dos Passos, visto que nesse tempo era comum mais de uma organização operária no mesmo local, dividindo entre si as despesas da sede.

Sua vida como atriz iniciou em 1912, quando Elvira estreou no teatro social em uma representação da peça de Neno Vasco “O Pecado de Simonia”, e de 1919 a 1922 atuou em diversas peças de cunho social, integrando o Grupo Dramático 1º de Maio. Foi devido a sua participação nesse grupo de teatro operário que Elvira conheceu seu futuro esposo, Olgier Lacerda, um dos 12 fundadores do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1922.

Em 1922, a União das Costureiras, Chapeleiras e Classes Anexas fechou, segundo depoimento de Elvira, por falta de interesse das mulheres em participar do movimento sindical, situação que seria decorrente do medo que elas tinham da repressão patronal e do fato de se identificarem mais como artistas do que como operárias, o que atrapalhava o recrutamento para a ação sindical. O casamento de Elvira e Olgier Lacerda coincidiu com o fechamento da entidade, e entre 1925 e 1929 o casal foi morar no Rio Grande do Sul, onde nasceram suas filhas Vanda (atriz Vanda Lacerda) e Zeni. Em 1938, Elvira foi morar em Santa Teresa, na cidade do Rio de Janeiro e em 1949 fundou junto com outras mulheres a Associação de Senhoras de Santa Teresa, que desenvolveu importante trabalho comunitário de proteção à infância, por melhorias comunitárias e contra a carestia.

Elvira Boni de Lacerda faleceu com 91 anos no Rio de Janeiro, em 1990. Sua história, assim como a de muitas mulheres, nos reafirma que a luta de classes faz parte da luta das mulheres trabalhadoras, e que estas constituem uma das camadas sociais que mais se prejudica com a desigualdade causada pelo capitalismo e com a sociedade hierárquica. As conquistas sociais das mulheres exploradas só se realizaram devido à luta erguida por revolucionárias como Elvira.

Vemos a emergência de manifestações massivas na Argentina e em outros países. E nestes momentos a classe dominante tenta a todo custo frear a luta popular, seja por meio da repressão ou da incorporação de alguns elementos. Por isso retomamos na história a perspectiva de uma luta das mulheres por uma transformação social profunda. É preciso fugir da concepção individualista de empoderamento para avançar rumo à emancipação integral das mulheres, com autonomia e independência de classe!

No dia 8 de Março de 2017, convocamos todas as pessoas que compreendem a importância da luta feminista abaixo e à esquerda para compor as mobilizações que ocorrerão nessa data em Curitiba, entendendo que a luta deve ser pautada pelas necessidades das pessoas oprimidas, ou seja, as mulheres da classe trabalhadora, negras, camponesas, indígenas, transexuais, lésbicas e bissexuais. A nossa luta, além de tudo, deve ser diária, articulando as demandas das mulheres em todos os espaços em que estamos presentes, na luta por moradia, educação, saúde, etc. Para construir uma mobilização desde a base,  forte e ombro a ombro!

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Muralismo em homenagem à luta das mulheres realizado na Comunidade Portelinha pelo Movimento de Organização de Base – Paraná. 

 

Manifestação contra o aumento da tarifa em Curitiba é marcada por VIOLÊNCIA POLICIAL

Na última sexta-feira (3), a Prefeitura de Curitiba anunciou o novo valor da tarifa do transporte coletivo na capital paranaense. O reajuste, de R$ 3,70 para R$ 4,25 – inclusive aos domingos, cuja tarifa anteriormente custava RS 2,50 – representa um aumento de quase 15% e torna Curitiba a capital com a passagem mais cara do país.

Em 2013, tanto o Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR) quanto a CPI do Transporte da Câmara de Curitiba apontaram diversas irregularidades no processo de licitação de nosso sistema de transporte, apresentando fortes indícios de fraudes no contrato com as empresas, além do superfaturamento da tarifa que, de acordo com o TCE, não deveria passar de R$ 2,25 naquele momento, ou seja, a tarifa cobrada hoje é dois reais mais cara. A URBS, empresa responsável pelo gerenciamento do sistema de transporte público de Curitiba, não apresenta informações claras sobre os gastos com o transporte, sendo, então, injustificável aumentar a passagem para cobrir esses gastos. Cabe questionar: se os gastos com o transporte são tão grandes a ponto de serem necessários tantos aumentos para as empresas não saírem no prejuízo, por qual motivo uma só família acharia proveitoso controlar quase 70% dos consórcios de ônibus de Curitiba?

Além disso, estamos cansados de saber que os consecutivos e injustificados aumentos não influenciam na qualidade do transporte ou na melhoria nas condições de trabalho e salários dos trabalhadores da categoria, apenas aumentam os já exorbitantes lucros da máfia do transporte, importante financiadora das campanhas eleitorais. A prefeitura alega que o aumento da tarifa tornará viável a renovação da frota de ônibus, ignorando que já há um percentual previsto na tarifa destinado a isso – mais um indício de superfaturamento.

O reajuste começou a valer nesta segunda-feira (6) e uma manifestação contrária ao aumento e à máfia do transporte já havia sido convocada pelo CWB Resiste em conjunto com a Frente de Luta pelo Transporte. A partir das 18h30, cerca de 700 pessoas começaram a se concentrar na Praça 19 de Dezembro para decidir o rumo do ato. O trajeto mais votado foi seguir para a URBS ao invés de ir até à Prefeitura ou à casa de Rafael Greca, já que, apesar do prefeito ter responsabilidade em aumentar os lucros dessa máfia, é a mando deles que o aumento foi acatado pela atual gestão da prefeitura, bem como as anteriores. Outro ponto que pesou para a escolha do trajeto foi a possibilidade de passar pelo Terminal do Guadalupe e Praça Rui Barbosa, locais com grande circulação de usuários do transporte coletivo. Nestes pontos algumas das estações-tubo foram ocupadas por manifestantes e tiveram suas catracas liberadas, para que a população pudesse usufruir por alguns momentos do direito de ir e vir, que deveria ser assim: livre!

Durante o trajeto, algumas vidraças de bancos foram quebradas, mas, ao contrário do que a mídia local tem noticiado, não foi o “vandalismo” que marcou o ato, e sim a repressão desmedida da Polícia Militar, que chegou tempos depois dos tais atos de vandalismo já cercando toda a manifestação na Avenida Sete de Setembro. Bombas de efeito moral, de gás e balas de borracha foram lançadas na direção dos manifestantes que se viram encurralados por todos os lados durante várias quadras sem poderem se dispersar de forma segura. Além disso, algumas pessoas foram agredidas diretamente por policiais com cassetetes e spray de pimenta que também estavam prendendo de forma arbitrária as pessoas que alcançavam aleatoriamente. Há relatos de pessoas feridas e a informação de 11 detidos até o momento. Companheiros(as) contam que foram espancados(as), mesmo depois de rendidos(as),  antes de serem levados(as) ao 1º distrito policial.

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É de extrema importância que neste momento não façamos coro com a grande mídia em responsabilizar as pessoas que jogaram pedras contra vidraças de bancos pela injustificável e violenta atuação da Polícia Militar no ato desta segunda-feira. Ainda que sejam, por vezes, ações individuais, são indivíduos que cerram fileiras conosco e lutam por dignidade e justiça. Que as divergências sejam tratadas dentro do movimento com responsabilidade, mas sem recair em generalizações e caracterizações que em nada contribuem para uma ação unitária e ainda reforçam a criminalização de alguns grupos em detrimento de outros.  

É sintomático que, no primeiro ato da gestão de Rafael Greca como prefeito, a ação policial tenha sido tão diferente dos atos anteriores em que também houve quebra de vidraças, quando os policiais mais acompanhavam o ato e marcavam os rostos dos manifestantes, muitas vezes os fotografando e filmando. É também sintomático perceber o prazer com que alguns policiais militares agrediam e ameaçavam os manifestantes, parecendo muito satisfeitos que agora possuem o aval para fazê-lo.

Greca, aliado de Beto Richa, mostrou que, assim como ele, está disposto a fazer qualquer coisa para defender os interesses dos de cima – inclusive massacrar os de baixo. Nesse contexto, vale relembrar a ação truculenta da Polícia Militar no dia 29 de abril de 2015, dia do massacre promovido pelo governador Beto Richa contra professoras e professores da rede estadual de ensino que reivindicavam por seus direitos ao se levantarem contra as mudanças na Previdência Social (PL 252/2015). Não podemos nos esquecer de que a Polícia Militar é de responsabilidade do Governo do Estado, mas essa aliança política entre prefeito e governador já se provou bastante perigosa para os que lutam – bem como para os mais marginalizados com ações de higienização.

A data do ato (6 de fevereiro) coincide com os dois anos da chacina do Cabula, quando 12 jovens negros foram executados em um campo de futebol em Salvador, na Bahia (onde o governo do estado está nas mãos do PT). Serve para nos lembrar que os gestores políticos são os gestores da violência. A verdadeira violência é a estatal, fruto de uma estratégia perversa que coloca o povo trabalhador sobre seu domínio. Não há um político que não tenha suas mãos manchadas de sangue. Há pouco tempo assistimos um cenário de guerra em Brasília durante as manifestações nas duas votações da PEC 55 no Senado. O Estado tem sido o espaço que garante a fartura dos ricos e a exploração dos pobres, a extensão política da exploração econômica. Em nossa “democracia” vivenciamos nossos direitos negligenciados. Nossas vidas marginalizadas, descartáveis. E a polícia é o seu maior recurso, é com a desculpa da “segurança” que em tempos de cortes em áreas fundamentais os investimentos no aparato repressivo não cessam, pelo contrário, são ampliados e engatilhados contra os que produzem e sustentam toda a riqueza e dela acabam usurpados. Dias piores vem chegando, o aumento da passagem chegou a um preço exorbitante em Curitiba (ainda mais na Região Metropolitana), assim como em outras cidades do Brasil. Não é por acaso que endurece a repressão. As condições de vida cada vez mais precárias instigam a revolta daqueles que, embora não estejam organizados e que muitas vezes possam agir “espontaneamente”, enxergam cada vez mais nítido seu inimigo e a necessidade de combatê-lo com todas as forças.  

Portanto, é necessário que estejamos unidos e organizados contra os ataques dos de cima, sejam de forma mais implícita como o aumento da tarifa ou mais explícita como a violência policial e o impedimento ao direito de manifestação. É direito da população lutar por acesso e qualidade nos serviços públicos.

Precisamos prestar solidariedade àqueles que foram detidos ou feridos durante esta manifestação e àqueles que já são perseguidos e investigados há tanto tempo pelas polícias por participarem ativamente das lutas pela garantia de nossos direitos. Além disso, precisamos fortalecer ainda mais a revolta contra o aumento da tarifa, organizar coletivamente um calendário de lutas com panfletagens, catracaços e atos cada vez mais combativos.

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Rodear de solidariedade aqueles que lutam!

Pelo direito à cidade! Por uma vida sem catracas!

[AOC] Jornal d’A Outra Campanha – Paraná 2016

A Outra Campanha – Paraná é construída por várias organizações e militantes do campo libertário da esquerda e realizou neste ano uma série de atividades de apoio e propaganda às lutas sociais, em especial ao movimento secundarista que ocupou mais de 1.000 escolas no Paraná.

Uma das organizações empenhadas na construção da AOC, o Coletivo Quebrando Muros tem o orgulho de ter contribuído com a produção do Jornal d’ A Outra Campanha, que teve tiragem de 1.500 exemplares e foi distribuído durante as atividades de militância nas dezenas de ocupações de escolas, universidades, debates e atos em que A Outra Campanha esteve presente.

Agora, distribuímos o Jornal d’A Outra Campanha também em formato digital.

Boa leitura!

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Lutas e vencer fora das urnas!

Autonomia e autogestão, é nós por nós defendendo a educação!

Abaixo e à esquerda sempre!

 

 

Criminalizar a combatividade: isso sim é fazer o jogo da direita

Em um artigo de opinião publicado em 02 de dezembro no site oficial da Insurgência, corrente interna do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), o militante Eduardo d’Albergaria apresenta uma análise sobre os acontecimentos do dia 29 de novembro, quando o Senado Federal aprovou, em primeira votação, a Proposta de Ementa Constitucional nº 55 (antiga PEC 241, que congela em 20 anos os investimentos em serviços públicos) por 61 votos a 14 enquanto do lado de fora da Casa se estabelecia um cenário de guerra entre manifestantes de todo o Brasil e as polícias da capital.

A análise se configura em uma crítica à atuação do chamado Black Bloc não apenas nesse ato em específico e sim, de forma generalizada, no Brasil, sendo motivada por um recente retorno da prática de desqualificação e criminalização de ações mais radicalizadas por parte de determinados setores que reivindicam a luta das massas. Essa prática volta à tona no momento em que a tática Black Bloc torna a ganhar expressão no cenário de mobilizações nacional contra o processo de medidas anti-povo acelerado por Michel Temer, mas já vinha acontecendo desde o levante de junho de 2013 e, com força ainda maior, durante as manifestações contra a Copa do Mundo de 2014. Durante esse período, tais setores da esquerda – principalmente ligados ao petismo – fizeram coro uníssono com a direita contra a juventude combativa que tomava as ruas convicta de sua luta e autonomia e inovando em táticas, reforçaram a narrativa reacionária que distingue manifestantes de “mascarados” e inclusive chegaram a confrontar e entregar manifestantes para a polícia, atuando como a P2 do próprio movimento.

O texto apresenta diversas falhas de leitura sobre os fatos que sucederam no dia 29 de novembro, algumas mais “inofensivas” como ao comemorar uma suposta baixa adesão de (ex)governistas ao ato quando a presença desses setores e o papel cumprido por eles de recuar a manifestação foram nítidos, ou então ao apontar o número de “mascarados” entre 50 e 100. Outras falhas, porém, são mais sérias e não podem ser vistas como mero descuido: o artigo literalmente responsabiliza as ações dos adeptos da tática pela truculência policial, como se a força policial que mais mata no mundo fosse incapaz de atacar uma manifestação pacífica e como se qualquer manifestação que incomodasse minimamente aqueles que terão seus interesses protegidos pela PEC 55 não seria reprimida pelo braço armado do Estado que só governa para os de cima.

O Black Bloc é uma tática essencialmente de defesa das manifestações e seus adeptos se utilizam de diversos materiais para evitar danos maiores aos manifestantes. Então, ao invés de alegar que não haveria repressão policial caso não houvesse ação dos Black Blocs em Brasília, por que não se perguntar como seria a repressão policial caso não houvesse resistência em Brasília? O confronto não teria durado horas, a manifestação teria dispersado logo no início e todo mundo voltaria para suas cidades (e só com muito cinismo com a sensação de dever cumprido). Como seria o massacre de 29 de abril em Curitiba se não houvesse “mascarados” com seus escudos a frente da manifestação para que uma quantidade menor de bombas e balas de borracha atingissem os presentes, chutando as bombas de volta para a polícia, carregando os feridos para longe do confronto e ajudando-os, distribuindo materiais que amenizam o efeito das bombas, etc.?

É de extrema irresponsabilidade colocar a polícia e o Black Bloc como atores de um mesmo papel que protagonizou as imagens que a mídia burguesa precisava para desmoralizar a manifestação, esvaziando todo o debate político que ela deveria trazer. Assim como o empresariado, banqueiros, grandes proprietários de terras e caciques políticos, os detentores dos meios de comunicação da grande mídia fazem parte de um pequeno grupo que trabalha para manter seu poder e privilégios. A maior parte da população será prejudicada pela PEC 55, mas se informa principalmente através destes veículos de comunicação e não está consciente disso – não porque um grupo de manifestantes quebrou algumas vidraças e a mídia foi obrigada a retratar isso de forma negativa, mas sim porque a imprensa promove cotidianamente propaganda favorável à PEC 55 e a qualquer outra medida que continuará privilegiando os velhos privilegiados enquanto ataca a nossa classe.

Agora, se a mídia “alternativa” (que de independente não tem nada) reproduz o mesmo discurso que criminaliza as ações mais radicalizadas – como os Jornalistas Livres que insinuaram que os jovens que estavam no front em Brasília eram infiltrados – se faz necessário analisar as coisas com muito mais cautela do que simplesmente comprar e reproduzir esse discurso. É curioso notar que, logo após o impeachment de Dilma e as primeiras movimentações pelo “Fora Temer”, essas ações, mesmo que desordenadas, foram recebidas de forma até mesmo amigável pelas organizações e mídias com maior proximidade com o governo que acabara de ser deposto. A partir do momento que esses setores percebem que não podem parar essa juventude no canetaço e acordaço com os patrões como fazem com as greves de seus sindicatos aparelhados ou que não podem organizar esses jovens em suas fileiras por rejeitarem a representatividade e a verticalidade que são tudo o que essas organizações têm a oferecer, o discurso muda. Aqueles que, por sua coragem, disposição e desbravamento, são várias vezes convidados a contribuírem para o movimento, agora são inimigos e devem ser combatidos – no discurso ou não.

O artigo aponta ainda para uma suposta despolitização e desorganização dos adeptos da tática Black Bloc, coisas que eles não podem provar pura e simplesmente por falta de contato. Desconsideram esse setor, em sua maioria da juventude periférica, que vai às ruas ardendo pela transformação social e está aprendendo, a partir da prática, a importância da organização popular cotidiana. Estas pessoas não reconhecem nas velhas formas um campo fértil para sua atuação, o que não quer dizer que não possam avançar no processo crítico para uma construção coletiva mais efetiva.

É muita ingenuidade ou falta de autocrítica afirmar que apenas a violência nos protestos afasta as massas da luta. O povo que ainda não se organiza e vai às ruas também rejeita boa parte das bandeiras, organizações e partidos que compõe os atos. O PT e a esquerda institucional têm responsabilidade nessa rejeição, mas a grande culpada é a mídia burguesa que cumpre o seu papel de fazer com que a população tenha aversão à organização e luta populares, pois é isso que dá as condições de libertar a classe trabalhadora de sua condição de explorada.

É claro que o Black Bloc enquanto tática utilizada pelos movimentos sociais tem muitas limitações e nunca foi intenção de seus adeptos derrubar sozinhos a PEC. Nós entendemos que apenas a organização de base nos diferentes locais de estudo, trabalho e moradia e outros que torna possível acumular força suficiente para barrar esses ataques. Não existem atalhos para reverter décadas de despolitização e burocratização nos movimentos, e para isso é preciso trabalhar junto ao povo desde já. No entanto, é necessário superar essa falsa distinção entre ação direta e trabalho de base, porque as duas coisas são perfeitamente possíveis e complementares. Conforme os movimentos sociais se fortalecem, devemos avançar no planejamento estratégico e nas instâncias de democracia direta para aplicar força da maneira mais eficiente no alcance de nossos objetivos. A radicalidade leva acúmulos históricos para o movimento. Nesse sentido, sendo a tática Black Bloc bastante recente no Brasil, entendemos como perfeitamente natural que haja problemas de organização e que a atuação até o momento não seja a ideal, mas a crítica que tem sido feita não vai ao sentido de aperfeiçoá-la, mas sim de criminalizar e silenciar toda expressão de combatividade.

O ponto mais preocupante que o texto levanta é a afirmação de que a lógica do enfrentamento seria “macho-centrada” e, portanto, afastaria mulheres e LGBT’s. Além de desconsiderar a realidade de movimentos como o Zapatista do México, a Revolução Curda no Oriente Médio e o papel fundamental das mulheres na Revolução Espanhola, o autor também demonstra desconhecimento sobre as raízes do próprio Black Bloc. Vale lembrar que LGBT’s também protagonizaram levantes extremamente radicais contra a perseguição institucionalizada pelo Estado. O que teria sido Stonewall (nos EUA), se não uma demonstração de força do movimento LGBT contra a violência policial? É impossível negar a contribuição daquela rebelião para a luta e organização pelos direitos desse setor oprimido da sociedade. LGBT’s e mulheres cerraram fileiras e resistiram nas barricadas em Brasília e em outras lutas ao redor do mundo. Enfrentamento é coisa de mulher sim e reivindicar fragilidade e incapacidade de se autodefender é que é machista e LGBTfóbico!

A desinformação acerca da tática Black Bloc propagada por esse campo da esquerda volta a se estabelecer, mas é preciso tomar cuidado para que ela não ganhe espaço e assuma uma face ainda mais perigosa e reacionária: da criminalização posta em prática e não apenas em discurso, como algumas organizações já se demonstraram capazes de fazer. É necessário combater o quinta-colunismo e esvaziar seu discurso, nos afastar do purismo tático e debater para longe do oportunismo toda ação autônoma e combativa.

Seguir organizando a revolta popular com independência de classe e de forma autônoma a disputa do Estado, pela força das ruas!