machismo

Nota de solidariedade às mulheres da UFPR

O Coletivo Quebrando Muros presta todo apoio e solidariedade às mulheres estudantes da UFPR, em especial as dos campi Politécnico e Reitoria, que recentemente têm enfrentado uma série de ameaças e violências dentro do espaço da universidade.

No dia 25 de maio, no prédio de Arquitetura e Urbanismo apareceu um cartaz extremamente lesbofóbico e com incitação ao estupro corretivo – prática defendida para a “cura” de mulheres lésbicas – além de outros xingamentos. Na mesma semana, outras pichações com conteúdo misógino e anti-feminismo surgiram na Reitoria, em especial dentro do Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CACS).

Aplaudimos a firme auto-organização das mulheres, que resistem apesar das duras críticas recebidas dos setores mais conservadores. Entendemos que é um certo teste de privilégio social o quanto somos permitidas a responder às nossas opressões. Infelizmente, esse é o tipo de ataque que costumamos esperar ao levantar nossas vozes. Historicamente o espaço público e da política não é destinado à mulheres, nem à pessoas negras, trans*, homossexuais e pobres. E o recado que estão tentando nos dar é bem claro: não ouse lutar, não ouse gritar!

Mas resistiremos! Sempre tentaram nos calar, mas nunca nos calarão! Acreditamos na auto-organização das pessoas de baixo, oprimidas e exploradas, para a construção de uma nova sociedade.Temos a certeza que se os nossos gritos forem cantados em consonância, serão escutados!

Que nossa revolta alimente nossa ação, e nossa raiva seja canalizada em mais força para lutar!

NÃO, NÃO, NÃO PASSARÃO!

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ASSÉDIO SEXUAL NO MEIO LIBERTÁRIO: NOTA PUBLICA DO COLETIVO QUEBRANDO MUROS SOBRE AFASTAMENTO DE MILITANTE

Companheiras e companheiros,

Nós, do Coletivo Quebrando Muros, gostaríamos de comunicar publicamente o afastamento de um de nossos militantes, além de reafirmar nosso compromisso enquanto organização libertária com o feminismo e o combate às opressões.

Apesar de ser algo bastante contraditório, não é novidade que haja entre nós, militantes de esquerda, pessoas com atitudes machistas e opressoras em geral. Alguns, inclusive, se utilizam do pretexto de participar dos movimentos sociais para justificar suas posturas opressoras e diminuir o sofrimento de mulheres, homossexuais, negras e negros, pessoas trans e pessoas pobres diante de suas atitudes. Quando se faz parte de uma categoria oprimida, apesar de sermos as diretamente afetadas por tais atitudes, costuma ser ainda mais difícil nos posicionarmos contra elas. Há um peso histórico que não nos permite falar, por estarmos acostumadas a sermos silenciadas ou não levadas em consideração, e há uma cobrança por sermos sempre racionais ao invés de falarmos sobre o que estamos sentindo.

Recentemente, recebemos uma denúncia grave em relação a um militante nosso, que imediatamente foi afastado do coletivo, bem como de todos os espaços políticos que participava. Gustavo Santos, também conhecido como Pollo (“Poio”), é estudante de ciências sociais na UFPR e compunha nossa Frente Estudantil. Chegou ao nosso conhecimento, no dia 8 de maio, que nos últimos meses ele manteve dois relacionamentos com mulheres estudantes da mesma instituição. Relações essas que, desde o princípio, foram extremamente abusivas moral, psicológica e sexualmente. As mulheres envolvidas, que vieram procurar algumas pessoas do coletivo para relatar o caso, estão sendo acolhidas e juntas estamos pensando em soluções para que opressões como essa não se repitam, buscando avançar em uma maneira eficiente de combater atitudes e posturas opressoras de nossos companheiros, para mantermos nossa Ética Militante dentro e fora do coletivo, e, assim, avançar em nosso projeto de uma sociedade mais justa e igualitária. Entendemos que atitudes machistas são inadmissíveis e que nós, organizações de esquerda, temos o dever de denunciá-las!

Salientamos que o foco do debate não é e nem deve ser a reação das pessoas oprimidas. Casos de relacionamentos abusivos como esse deixam feridas que nunca cicatrizarão. Somos a favor da denúncia pública de casos como esse, tanto como combate ao opressor quanto como um meio de criar uma rede de segurança entre nós, mulheres. Divulgar o nome de agressores, abusadores e estupradores não é exagero! Exagero é a forma abusiva com que os homens utilizam seus privilégios para nos oprimir e calar, em nome de suas satisfações pessoais.

Somos solidárias às estudantes que sofreram abuso. Não compactuamos com atitudes machistas, principalmente com violências tão sistemáticas como a sexual e psicológica, seja vindo de pessoas da direita ou da esquerda. Temos noção da gravidade da acusação e nos posicionamos ao lado das vítimas, privilegiamos a participação delas nos espaços de militância e movimento social em geral. Esperamos que o afastamento do Gustavo, assim como a exposição do caso, sirvam de exemplo para aqueles que militam conosco, tanto dentro da organização, como fora. E que fique claro que cobraremos o mesmo posicionamento de todos que se propõe a lutar do nosso lado.

Machistas, racistas, homofóbicos, transfóbicos: não passarão! Quer se reivindiquem libertários ou não!cqm

Nem Estado nem patriarcado

A esquerda quer tomar a rua. Quer fazer da rua um campo de batalha. Mas esquece que para as mulheres a rua já é uma batalha travada faz tempo. Ocupar os espaços públicos, infestados pelos privilégios e pelas falas masculinas é uma luta que se espalha dos cantos mais reacionários aos mais revolucionários do mundo a fora. Machismo não tem ideologia, ele toma conta dos punhos cerrados até das pessoas em luta só para direcionar o soco ao rosto dos grupos oprimidos. Não há nada de efetivo numa esquerda que afirma algo como uma questão de classe quando metade dessa classe está sendo subjugada e marginalizada. Não há nada de revolucionário em passar por cima do racismo, da homofobia, lesbofobia e transfobia por solidariedade de esquerda. Não há nada de libertário em ignorar a luta e empoderamento dos grupos oprimidos na nossa tão visada transformação social.

A destruição da autoridade não se resume à extinção do estado e do capital. Queremos quebrar os muros de toda forma de dominação do ser humano pelo ser humano; visamos extinguir a exploração sim, mas em conjunto com todas as demais formas de opressão. E entendemos que extinguir futuramente a exploração não é o suficiente se numa sociedade pós revolução existisse machismo, homofobia, lesbofobia, transfobia, racismo, capacitismo, e demais formas de opressão. E que hoje ser combativo da exploração, precarização e mercantilização sem levar em conta as opressões sobrepostas a elas é travar uma luta vazia. Nosso desejo é desmoronar o edifício de todas as relações de centro e periferia. Ou seja, a relação que existe quando há dominação, quando um grupo de pessoas utiliza a força social do dominado ou do agente subjugado para realizar seus objetivos, os objetivos do dominador.

Não se usa os erros políticos de uma pessoa para oprimí-la, não importa que erros sejam esses. Sejam em atos, reuniões, palestras, onde quer que seja, essas posturas precisam ser criticadas. Na última assembléia geral que aconteceu no pátio da reitoria da UFPR, por exemplo, houve uma denúncia de machismo que deve ser tomada como muito séria. Principalmente por se tratar de pessoas com as quais militamos junto, pessoas supostamente de esquerda de quem esperamos coerência em relação a essa questão.

A assembleia não pode responder à base do grito, vaiando e com postura agressiva frente às vítimas. Nos deparamos com cortes feitos às falas de mulheres organizadas em atos que compõe, ou expulsões de mulheres da comunidade de palestras por não respeitarem as inscrições e inúmeros outros casos. Existem formas de lidar com erros da esquerda como oportunismo político, corte de falas e implosão de reuniões de uma forma politizada, sem usar a opressão como tática. Quando erros políticos são feitos precisam ser combatidos, mas normalmente eles recebem respostas muito mais impositivas e grossas quando são feitas por meninas ou outras pessoas de demais grupos oprimidos. Entendemos que isso não é a toa, isso tem nome e se chama machismo.
Quando uma companheira de luta falar algo do qual não concordamos, podemos tomar uma postura opressora e lançar mão de estratégias como silenciamento e intimidação. Ou podemos mostrar um mínimo de coerência e esperar ela terminar de falar, fazer inscrição e contra argumentar. Somos solidárias a toda mulher que sofre opressão machista e reconhecemos que a esquerda, não mais que a direita, tem ainda muitos opressores. Como não os queremos no nosso meio, fazemos questão que se denuncie de maneira clara as opressões que ocorrem em nosso meio militante, por solidariedade e para que não sejamos nós as próximas vítimas.

Não aceitamos usar o centro como um instrumento de emancipação; a nós não cabe nem estado, nem patriarcado. A luta contra o centro é nosso modelo revolucionário. E nossos sujeitos transformadores são todos os grupos marginalizados, e os excluídos dentre esses grupos. Que sejam ouvidas as mulheres, os e as negras, os e as lgbt’s e grupos sociais marginalizados. Não basta a classe trabalhadora se revoltar contra a burguesia se só quem conseguem trabalho são os e as brancas. Ou os campos se movimentarem com uma mão na luta e a outra tampando a voz da boca das companheiras. Que o povo na sua totalidade conduza a sociedade à sua própria emancipação. Que o estado – em sua essência um governo de massas de cima para baixo- “com uma minoria intelectual, e por isto mesmo privilegiada, dizendo compreender melhor os verdadeiros interesses do povo, mais do que o próprio povo.” não nos sirva. Que nossa mobilização seja do nível político organizado como minoria ativa, sem hierarquia e nem domínio social, político, de gênero, racial ou qualquer outra forma de opressão e exploração.

NEM ESTADO, NEM PATRIARCADO.
A LUTA CONTRA O CENTRO É NOSSO MO
DELO REVOLUCIONÁRIO.

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